Um Estudo em Rosa – Sherlock

Por | 07/02/2014 | Sem Comentários

Sou apaixonada pela série da BBC Sherlock que se iniciou em 2010, de tal forma que acho inevitável me aprofundar o máximo possível naquilo que me conquistou tão bem.

Tratando-se de algo fundamentado em uma obra tão clássica quanto popular, imagino que as chances de uma nova interpretação deveriam ser tão ou mais arriscadas do que a tentativa de uma série original. Afinal, mesmo hoje Sherlock está tão aprofundado no inconsciente coletivo que por vezes nem reparamos sua influência dentre as séries de televisão que somos fãs.

Rapidamente poderia citar Lie to Me e CSI em âmbitos gerais; House de forma escancarada; Bones e The Mentalist na dinâmica e criação de seus personagens principais; e o personagem Sheldon e Spock respectivamente de Star Trek (a série clássica) e The Big Bang Theory.

Devo dizer à leva de confissão que quando jovem não li mais do que uma obra de Sherlock Holmes por que era apaixonada por outro detetive: Hercule Poirot. Claro que na época não entendia e nem tinha paciência para gostar de dois personagens tão parecidos e sendo Agatha Christie uma mulher, minha preferência pendeu para ela. Também não sabia então que no fundo Poirot é uma reencarnação de Holmes, ainda sem a interessante dinâmica que este possui com Watson.

Recentemente recomecei a acessar seu cânone sem vergonha nenhuma de minha ignorância frente a uma obra tão básica, nesta vida quero sempre conhecer as coisas que gosto o mais profundamente possível, mas aprendi que cada uma delas necessita de seu momento de atenção distinto. Pelo menos será benéfico no sentido que irei relatar cada experiência adquirida com as clássicas aventuras de forma fresca, aqui no Teletílica.

Sendo assim Um Estudo em Vermelho  e agora Um Estudo em Rosa.

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Um Estudo em Rosa é o nome tanto do piloto que não foi para o ar contendo sessenta minutos, quanto do primeiro episódio televisionado. Este foi escrito por Steven Moffat que é co-criador da série juntamente de Mark Gatiss, já conhecidos pelo público por seu trabalho conjunto em outro produto do canal, o renomado Doctor Who. Sem eles imagino que Sherlock nunca seria o que se tornou hoje.

A ideia de produzir uma nova versão do personagem partiu do conceito em comum de que uma grande obra literária transcende seu período. Ao contrário da maioria dos roteiristas e diretores ao reinterpretar estas histórias “clássicas”, para Moffat e Gatiss o tempo em que foram escritas é apenas uma casualidade – ainda que obviamente tenha sua importância.

Na verdade o ponto que acordavam é de que muito se perde nas adaptações audiovisuais quando enfatizam demais o cenário ou figurino, preocupando-se mais com a estética da história do que o que ela traz em si. Chegaram a citar tanto Cassino Royale (2006) quanto As Patricinhas de Beverly Hills (1995) em uma entrevista, como exemplos de boas adaptações que tanto conservaram o cerne das histórias originais, quanto souberam transpor a barreira temporal.

Além disso, os dois pensam que normalmente as reinterpretações de Holmes o retratam de modo muito mais cínico e circunspecto do que o personagem realmente é nos livros, chegando a comentar que na verdade ele está sempre rindo e parece-se mais com uma criança que prega peças constantes, sem noção de como estas podem afetar outras pessoas, do que um esnobe e sem consideração.

Bem, esta opinião única tão bem embasada na obra original de Conan Doyle com quem possuem grande familiaridade, com certeza lhes deu segurança o suficiente para colocar em prática a idéia de transportar ao nosso tempo este herói, realizando um piloto de 60 minutos a fim de ”vendê-lo”.

Na época muito foi dito na imprensa de que o estúdio não havia ficado tão impressionado, porém em vez de pedirem para diminuir o tempo do episódio, foi solicitado que fizessem já três com duração de 90 minutos cada.

É interessante perceber as diferenças principais entre o piloto e o primeiro episódio oficial (e não estou falando das locações, que são detalhes mínimos) tanto pelo estudo de como funciona um episódio piloto – o que deve conter para que conquiste os telespectadores – como para entender o que se perdeu e/ou ganhou com as mudanças gerais efetuadas e que deram o tom que Sherlock tem hoje. Pontuarei algumas delas aqui:

A introdução

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Toda a introdução do episódio televisionado não existe no piloto, a que se mostram as futuras vítimas sendo abduzidas antes de morrerem e logo a coletiva de imprensa da Scotland Yard.

Sou contra esta primeira parte com as vítimas, ainda que não odeie o recurso. Única e exclusivamente por que em minha opinião deixa muito óbvio posteriormente quem/como o assassino alcançava aqueles a quem mataria. Preferiria que o flash back tivesse sido mais breve ou substituído totalmente, com apenas citações através da coletiva dada pela polícia à imprensa.

Já a cena da Scotland Yard foi excelente em contundência e demarcou desde o começo o modo como veríamos Sherlock, tudo o que o envolve realmente “pula na tela”. Assim o conteúdo das mensagens que envia aos jornalistas aparece flutuando ao lado de seus corpos, intrometendo-se ao contradizer o relatório do inspetor Lestrade.

Sua presença toma conta do ambiente mesmo antes de o vermos fisicamente e o efeito é imediato nos telespectadores.

A interferência de Sherlock que está omissa no piloto, mostra que a polícia apesar de necessitar de seus préstimos ainda evita ter de consultá-lo, deixando para “último recurso”. Contrariamente ao que acontece no piloto em que o inspetor Lestrade parece muito mais perdido e dependente, o que se assemelha ao comportamento da polícia para com Holmes no livro em que foi baseado o roteiro, Um Estudo em Vermelho.

Imagino, no entanto, que o fato de Sherlock se atrever a “invadir” a coletiva de imprensa demonstra bastante o lado “sem noção” e de “traquinagens” que os escritores defendem, além de tornar a dinâmica muito mais divertida visualmente.

Sherlock e John

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Outro detalhe muito divertido é observar o modo como se alteraram as caracterizações tanto de Cumberbatch quanto de Freeman.

No piloto o Sherlock de Cumberbatch está muito mais vivo e espontâneo do que no televisionado, cheio de gestos, sorrisos e por isso muito mais real e sem graça do que a interpretação posterior. Até o guarda-roupa dele não é tão requintado quanto no televisionado.

Quando vemos Sherlock pela primeira vez no laboratório e no necrotério é bastante impressionante – como deveria ser, aliás.  A primeira imagem que temos dele é de ponta-cabeça de dentro de um saco de cadáver, vemos seu rosto do ponto de vista da vítima e isso é muito bonito!

Acho que a rigidez robótica que foi incorporada na caracterização do personagem se faz necessária para distingui-lo como o ser particular que é, visualmente funciona e o público gosta (Abed – Community, Gary – Alphas, etc) por que à partir de uma postura contida e fala mecânica o espectador automaticamente começa a desejar ver o personagem mais intimamente, descobrir quando/como/com quem esta muralha se quebra e como seria se agisse de forma mais natural. Tornamo-nos curiosos como voyeurs – se toda a mídia audiovisual já não nos transporta a este papel – mas neste cenário específico o desejo de acompanhar a progressão sentimental é um dos elementos que nos fazem continuar a seguir a história.

Claro o olhar por quem acompanhamos tudo isso é o de Watson, aqui neste seriado tratado como John. Existe uma teoria maravilhosa que absorvi nos fandoms do uso dos nomes dentro do seriado, que acho interessante compartilhar aqui:

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John Hamish Watson odeia seu nome do meio e o esconde por todos os meios, já William Sherlock Scott Holmes esconde seus nomes mais comuns. Tão belo e simples é uma forma rápida de entender suas personalidades, já que John é tudo menos comum e Sherlock tem relação estranha com tudo o que o torna ordinário.

Minhas preferências quanto à caracterização de John alternam-se alguns momentos para o piloto, outros para o televisionado: Na introdução prefiro o piloto em que apesar de Watson aparecer todo amargurado, após seu encontro com Sherlock suas respostas são rápidas e sarcásticas o que achei bem interessante de acompanhar, ao contrário do televisionado em que desconfiei da cara fechada de John o tempo todo. O homem realmente parecia morto e até sem-graça ao ponto de não confiar muito na química futura com Sherlock.

Porém em alguns momentos a vivacidade de John no piloto ficam muito caricatas, como quando reclama da perna e em seguida é chamado para ajudar a investigar o corpo da nova vítima encontrada, enquanto por outro lado no televisionado quando finalmente há quebra na seriedade até então constante de John acaba sendo tão impactante que torna o momento precioso.

 

Diferenças gerais 

Sherlock (2010)

Enquanto o piloto foi dirigido por Coky Giedroyc, já Paul McGuigan é responsável pelo televisionado e ambos têm linguagens visuais completamente diferentes.

O piloto de Giedroyc tem ritmo mais veloz, a fotografia é mais sombria e se assemelha muito mais ao que encontramos em séries policiais, com uma câmera fixa abrangendo todos os personagens de modo geral. O de McGuigan é muito mais sutil, move-se de forma mais lenta, nos dando tempo para adaptar às mudanças.

Além de possuir um enquadramento incomum, que prende constantemente a atenção de quem assiste, existe ainda o tratamento dado a figura de Sherlock que estando em cena capta totalmente seu foco.

Ao contrário do que normalmente acontece nosso olhar não se fixa na vítima enquanto os investigadores a circundam fazendo seu exame, ou quando as pistas são encontradas estas têm relevância marcada pelo foco, não, aqui tudo é Sherlock. O modo como o personagem se move, as expressões que se utiliza durante seu exame e pouca importância tem a vítima. Cumberbatch dança constantemente na tela assemelhando-se a um animal exótico, que seduz e assusta ao mesmo tempo.

Podemos realmente “ler” os pensamentos e ações de Sherlock através das palavras que surgem na tela seguindo seus movimentos. Só isto já é brilhante como a própria Ciência da Dedução, a que se baseia o raciocínio do detetive e que teoricamente pode ser aprendido por qualquer pessoa – ao contrário do distanciamento que temos quando acompanhamos CSI, Criminal Minds, entre outras.

Essa impressão de que poderíamos conseguir fazer as mesmas descobertas se tentássemos, torna-se algo transportado totalmente dos livros para o seriado através de um recurso muito simples que acabou tornando-se mecanismo essencial posteriormente.

Outras diferenças que chamaram minha atenção

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– A introdução de Mycroft, ausente no piloto, que dinamiza bastante o episódio oficial ao criar uma falsa suspeita (que é comum nos textos de Moffat e Gatiss) de que este seria Moriarty;

– O fato de o motorista do taxi seqüestrar Sherlock drogando-o após este sair do restaurante, que jantava com John fingindo-se de bêbado em uma seqüência que mescla humor e vergonha alheia. Afinal Sherlock deveria ser esperto o suficiente para não se deixar seqüestrar já no primeiro episódio. Esta cena foi substituída no televisionado em uma corrida que John e Sherlock fazem pelas ruas de Londres perseguindo o taxi (excelente fotografia da luz noturna da cidade mostrando o conhecimento urbano do protagonista e reforçando a amizade conquistada dos heróis).

– A dificuldade incrível que Sherlock tem em descobrir a identidade do assassino no episódio oficial (todos os telespectadores descobriram antes dele, aparentemente), já que no piloto ele sempre soube.

– A utilização da palavra RACHE originária do livro, em que um dos policias arrisca o nome “Rachel” antes de a teoria ser descartada por Holmes que descobre ser “vingança” em alemão, enquanto no televisionado acontece o contrário, Andrews cita “vingança” quando na verdade significa Rachel.

– A substituição do anel de noivado (ring) que é uma pista importante no livro e no seriado transforma-se em “ring” de celular;

– A desconfiança evidente que John cria contra Sherlock depois do aviso da oficial Donovan contra sua companhia que está presente apenas no piloto;

– O local do confronto final que no piloto é o próprio flat na 221B Baker Street e no oficial em uma universidade deserta, com o uso da arma de fogo falsa para coerção no lugar da droga injetável;

– Apesar de o jogo das duas pílulas ser semelhante e o assassino ter um aneurisma no cérebro em lugar de no coração como no livro, suas motivações são completamente diferentes da vingança passional originalmente descritas em Um Estudo em Vermelho. Aliás o diálogo final no episódio oficial encontrei como muito longo e monótono, não apeteceu justamente por causa da estranheza diante da estupidez de Sherlock ao ser levado dentro de uma situação tão perigosa – assim como aconteceu quando vi o taxista ali na sala repleta de policiais.

 

ilustração

ilustração do fandom no tumblr