Lua de Cristal e Rock of Ages

Ressaca #01 – Lua de Cristal / Rock of Ages

Por | 19/02/2014 | Sem Comentários

Eu fui o cobaia para o primeiro Ressaca, e devo dizer que assistir dois filmes que eu não tinha a menor intenção de assistir não foi nada agradável, como já devem imaginar. Porém encarei o desafio com espírito esportivo.

A Natacha (Net Vital) escolheu para mim o filme Lua de Cristal, o clássico exibido exaustivamente na Sessão da Tarde da Globo, com a apresentadora infantil Xuxa e o digníssimo príncipe Sérgio Mallandro. Enquanto o Fabrizio optou por um musical (gênero do qual não sou muito fã), o Rock of Ages. Desses dois acreditei que rever um clássico da Sessão da Tarde seria uma experiência agradável, porém, me deparei com um filme grotesco, que me fez questionar “Por que?” a cada cena. Devo salientar que coincidiu dos dois filmes trabalharem o mesmo criativo tema da garota do interior que vai pra cidade viver o sonho de se tornar cantora, nessa Rock of Ages sai perdendo pois teve esse lapso criativo no ano de 2012, mas logo também falarei mais sobre isso. Vamos aos filmes.

Lua de Cristal
Filme de 1990 (mesmo ano de estréia dos filmes Esqueceram de Mim, As Tartarugas Ninjas e Covenção das Bruxas), segundo filme (infantil) em que a Xuxa é a protagonista, ao lado do também apresentador infantil Sérgio Mallandro. Foi dirigido pela descendente de japoneses Tizuka Yamazaki, que anteriormente só tinha trabalhado com filmes históricos como Gaijin de 1980, mas a partir de Lua de Cristal passou a ser parceira da Xuxa nas próximas produções cinematográficas. O filme também conta com algumas figuras que estavam sempre presentes em seu programa, como as paquitas e paquitos, inclusive entre eles encontra-se a atriz Letícia Spiller, os grupos músicais João Penca e Seus Miquinhos Amestrados e o cantor Abdula com o grupo Funk Brasil, além também da garotinha Duda Little, uma espécie de Maisa da época.

O logo ideal para uma linda história de amor.

O logo ideal para uma linda história de amor.

O áudio do filme foi gravado separadamente do vídeo pelas limitações da infraestrutura do cinema da época, técnica que ainda era muito comum aqui no Brasil. O resultado é que todas as falas são dubladas, algo que abre espaço para improvisações e linhas de texto bizarras que só aconteceram dentro do estúdio de gravação, sem falar do péssimo trabalho de mixagem de som, visível na simulação da acústica, profundidade e volume de vozes. As improvisações mais bizarras são obviamente do nosso amigo Sérgio Mallandro, mas não se compara aos excelentes vilões de Avelar Love que fez o personagem Mauricinho e Lidinha feita pela atriz Júlia Lemmertz.

Mauricinho assediando sua prima Maria.

Mauricinho assediando sua prima Maria.

A história do filme tenta de várias formas ser coerente, porém foram só algumas poucas boas ideais mal executadas junto com uma gigantesca quantidade de más ideias. O filme funcionaria se fosse bem sucedida a tentativa de passar uma lição de vida para o público infantil, mas falha nisso também já que não consegue demonstrar em suas cenas os graus de superação que a personagem teria que passar para se tornar uma vencedora. É tudo corrido, como por exemplo no começo do filme quando é mostrado seu medo de palco, algo que se perde e só é relembrada no final de uma forma bem rápida e insignificante. A criança público alvo do filme vai sair ganhando muito mais se assistir ou ler obras que o filme tentou copiar como A Princesinha e Cinderela.

Grandes atuações.

Grandes atuações.

As más ideias do roteiro são os pontos mais engraçados, poderia citar todas as cenas sem sentido durante o filme, mas provavelmente teria que falar praticamente do filme todo. Se ainda quiser assistir vale a pena rever cenas maravilhos como Maria da Graça se jogando na roda de Breakdance mostrando que não veio pra cidade grande de brincadeira, ou ela andando de skate pela cidade procurando emprego, sem falar da sua planta madrinha de estimação, cenas que sem dúvida deixaram marca na história do cinema nacional.

Primeiro encontro com o príncipe encantado.

Primeiro encontro com o príncipe encantado.

Para não me estender muito, segue agora algumas incríveis frases tiradas do filme, fiz questão de comentá-las para contextualizar o seu respectivo valor:

“Primo com primo dá lombriga!” – Diz a personagem Lidinha, condenando as relações incestuosas dos personagens, lição importante para as crianças.

“Criança, anã, é tudo a mesma coisa, é tudo baixinho!” – Diz novamente a vilã Lidinha, mostrando seu preconceito com ambas as classes.

“Verde, te quero verde, para o mundo virar mais criança.” – Cantarola a Maria da Graça com grande eloquência e coesão.

“Caxumba não! Ai meus países baixos!” – Diz o personagem Mauricinho mostrando seu vasto conhecimento de doenças infecciosas e os seus males.

“Será que eu sou deus? Minha voz está pela cidade!” – Diz a personagem Zuleica em um monólogo filosófico enquanto está presa na privada.

“Suspende o veterinário que o porco já deu sinal de vida!” – Frase dita após um arroto, denotando como o filme tem um humor engraçado.

“Eu sou criança, mas não tô morta!” – Diz a pequena Duda em um claro protesto contra a mortalidade infantil.

Rock of Ages
Filme de 2012 baseado no musical da Broadway de 2006 e em um livro com o mesmo nome, Rock of Ages conta uma história montada em cima do rock dos anos oitenta, conhecido como o rock “farofa” o qual nessa época estava em seu auge de popularidade. O livro foi escrito por Chris D’Arienzo, que também trabalhou no roteiro do filme, a direção ficou por conta de Adam Shankman anteriormente diretor do musical Hairspray de 2007, além de alguns episódios de Glee. No elenco temos Alec Baldwin (fazendo a gente sentir vergonha alheia com sua dancinha marota), Tom Cruise pela primeira vez em um musical, Chaterine Zeta-Jones (também presente em Chicago), Russel Brand roubando a cena em alguns momentos, Julianne Hough (Burlesque) e Diego Boneta (Rebelde, sim aquele do RBD), todos muito bem nos papéis.

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O principal motivo desse filme cair pra mim no Ressaca é que eu não sou fã de musicais, mas respeito eles como uma forma diferente de entretenimento no cinema e principalmente em espetáculos teatrais. Rock of Ages aparentemente nasceu da ideia de se fazer um musical usando músicas de rock da sua década de maior popularidade, apenas isso, não se esforça para homenagear ou relembrar o que foi de fato aquela época, só cria um mundo fantástico e glamouroso em cima da imagem criada pelos artistas – roupas, decoração, performances. Tudo foi trazido à tona da forma mais exagerada possível, tornando-se obviamente caricato, porém sem ridicularizar, pois o filme deixa bem claro que tudo está sendo visto sob uma ótima cômica.

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Apesar de falar de fama e um pouquinho de subversão, não tem drogas e nem nudez, é rock’n’roll para toda a família. Existe a possibilidade de quem gosta realmente das músicas usadas no filme se sentir um pouco ofendida, mas devo dizer que o filme em si não é de todo mal, a produção dele é muito boa, a edição dinâmica durante as músicas que intercalam de uma cena para outra é bem interessante, o humor também é até melhor do que se espera para esse tipo de filme, Tom Cruise e Russel Brand roubam a cena fazendo as melhores atuações, mesmo a protagonista Julianne Hough não atuando de forma ruim.

Tom Cruise

Acredito se eu gostasse de musicais e de alguma das músicas do filme, iria achá-lo bom, pois ele não chega a ser um filme ruim mesmo. Como já disse, ele é um musical da Broadway sobre o rock “farofa” oitentista – e é só isso.

Concluindo, o romance é ok, o personagem do Tom Cruise é bom, pelo menos quando é apresentado. O prefeito e sua esposa não antagonizam como se espera, perde um pouco do sentido deles estarem ali. A relação dos personagens de Alec Baldwin (ressalto novamente a vergonha alheia de ver ele nesse filme, total crise da meia-idade) e do Russel Brand não é bem construída, só está ali para ser uma piada. No geral é um filme moderadamente médio.

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Para mais conteúdo acesse a Maratona de Wes Anderson que postamos junto dessa Ressaca.