O Som Ao Redor – Kleber Mendonça Filho

Por | 20/02/2014 | Sem Comentários

Vou começar a comentar sobre O Som Ao Redor com uma declaração problemática, mas que acho bastante necessária para bem do argumento: não vi antes por que deduzi ser uma peça cabeçuda e/ou pretensiosa e a partir desse preconceito me deixei levar. Deixei pra lá até que este caiu praticamente em meu colo.

Que horror! Absurdo! Essa juventude! Não tanto quanto as criticas que li sobre este filme esperando justamente que fosse mais cabeçudo e/ou pretensioso. Exigindo, às vezes até.

Neighboring-Sounds-021025

A questão não é se eu assisto ou não filmes mais densos (e eu vejo – assim como trasheiras), mas sim minha relação com as películas nacionais. Estou acostumada às obras pré-selecionadas ao Oscar serem daquelas carregadas de tensão, fotografia demarcatória, reviravoltas dramáticas, lambe terra, chora, e tudo mais.  De novo, não que estes sejam todos ruins, só é um tipo de pré-requisito para os filmes “exportados”.

Aclamados primeiramente pela nossa própria crítica, claro.

neighbouringsounds_large

Decidi primeiramente destacar este assunto por que tenho certeza que não sou a única a ter pensado assim e O Som Ao Redor dentro deste contexto é sensacional.

Por quê?

Resumindo é um filme autoral ainda que repleto de referências e influências. É divertido, tenso, bonito visualmente, diferente, real, simbólico, onírico, regionalista, histórico, social, uma homenagem, mas talvez isso seja resumir demais.

Inicia-se com uma série de fotos em preto e branco (que me lembrou o final de Dogville) durante a década de 60 de pessoas que viviam na zona rural e em seguida já estamos seguindo uma garota andando de patins dentro de um condomínio fechado em que as pessoas estão acumuladas na quadra (área de lazer). Corte para uma batida de carro e o título da primeira parte então aparece.

Dividido em Cães de Guarda, Guardas Noturnos e Guarda Costas o filme se passa em um bairro do Recife com algumas cenas na Zona da Mata de Pernambuco na última das três partes. Neste local temos a aparição da escola João Carpinteiro em uma homenagem de Kleber Mendonça Filho a John Carpenter além de uma das melhores cenas do filme, em minha opinião, quando dois personagens exploram a estrutura de uma casa.

O legal de O Som ao Redor é que ele é sutil. O espaço é uma peça chave na história seja físico ou social em que sempre temos espectadores invadindo de um modo ou de outro, assim como o som da cidade.

A história alterna-se entre João, Bia e o grupo de vigilantes que é contratado para proteger o bairro. João (Gustavo Jahn), jovem cidadão de classe alta nos é mostrado primeiramente acordando nu em companhia de Sofia (Irma Brown) enquanto a empregada chega para trabalhar. Apesar de parecer meio “banana” já que trabalha em um emprego que odeia, isto se deve justamente por respeitar e valorizar sua própria família, aquilo que possui. Destaque para sua empolgação quanto ao relacionamento com Sofia, que espalha para todo o mundo antes de saber o que vai dar.

brazilfilmfest3_jpg_680x2000_q90_up

João e Sofia

Bia (Maeve Jinkings, excelente no papel) é uma mãe de família de classe média completamente presa dentro desta posição que se colocou e lutando contra o barulho do cachorro chato do vizinho. Todas as cenas com a família de Bia são ótimas, principalmente a do sonho e a do aspirador de pó.  É muito interessante ver as brincadeiras que Mendonça utiliza para retratar uma família neste círculo, apenas o aparecimento do marido já foi um acontecimento.

som1379766294

Bia e seus filhos

Se na primeira parte temos apenas a exposição dos personagens e a contratação dos vigilantes, na segunda estes dão um show ao penetrarem na rotina do bairro. A presença deles, mais do que tudo, demonstra um forte reflexo da violência já que os moradores sentem-se confortáveis ao dividirem sua privacidade com completos estranhos.

Este tipo de reflexo da sociedade também é belamente ilustrada em uma cena em que ocorre uma reunião de condomínio na qual decidem o destino do porteiro. Aqui o diretor (Kleber Mendonça Filho) expõe um sarcasmo ao nos fazer refletir sobre os mecanismos de poder entre as classes sociais e como lidamos com elas.

8111_5

Os Vigilantes

A partir de certo tempo de filme não consegui me livrar da impressão de que algo daria seriamente errado em breve, um tipo de tortura gostosa que filmes de suspense bem feitos costumam provocar e o estilo de narrativa muitas vezes tem reflexo disso, do terror e suspense que se encaixaram muito bem na visão do diretor, assim como as referências a filmes de faroeste.

E o encerramento é simplesmente excelente. Acho que revi umas três vezes. É apenas após esta conclusão que entendemos realmente o significado do título do filme: O Som ao Redor da cidade é ao mesmo tempo um mecanismo natural de alerta, como algo a que nos tornamos anestesiados ao ponto de não nos darmos conta de sua importância. Como a batida do carro no início do filme.

Claro que existem diversas outras brincadeiras relacionadas ao som durante a história, como o carro do camelô que toca o forró alto, a bola que bate no muro do condomínio, as meninas com vozes de dubladoras fazendo seu teatro de imitações, as histórias contadas pelo Tio Anco que apenas fazem sentido a ele mesmo. O som ao redor sempre pode ser apenas barulho, até que prestemos atenção.