Modotti – Ángel de la Calle

Por | 13/03/2014 | 2 Comentários

Comprei esta história em quadrinhos em um sebo por dez reais e apenas recentemente terminei sua leitura que necessita de atenção aos detalhes sem a facilidade franca de alguma obra sem profundidade, o que não critico de modo algum já que sou consumidora destas peças também.

Neste âmbito Modotti não é uma leitura que descreveria como difícil, apenas diferente tanto em tom quanto em traço do que estou acostumada, o que demandou minha adaptação como leitora. Ainda que tenha a prerrogativa de contar a história real de Tina Modotti o próprio autor Ángel de la Calle está inserido na obra de forma que não só ele torna-se personagem, mas sua própria obsessão por esta mulher formidável.

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Ángel de la Calle e sua obra

A partir disto não temos um contraponto entre ambos através de narrativa fluída que moldaria fatos e ficção pontuados de dados históricos como normalmente acontece, em vez disso somos apresentados a toda uma série de personalidades que servem tanto como coadjuvantes na vida de Tina, como referência para aqueles que como eu quase nada conheciam das questões políticas, artísticas e intelectuais da história mundial. Sim, por que afinal tudo está interligado – Tina Modotti foi uma mulher que seguiu destino completamente atado a importantes acontecimentos históricos, que viveu para o mundo, e não para si ou pessoas próximas.

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Basicamente ela foi contrária ao individualismo com que vivemos hoje.

Assim esta leitura necessita de uma espécie de submersão extremamente interessante daquele que o consome, já que as diferenças com a época atual são tão discrepantes que em alguns momentos me perguntei se realmente foram reais. E sim, foram.

Acho que há a necessidade de eu levantar um argumento óbvio de que o público brasileiro em geral – eu incluída – não teve educação política o suficiente para apreciar Modotti em todos os sentidos, o que me envergonha. No Brasil apenas aqueles que optam por se politizar são os que cultivam esta consciência de forma independente, no meu caso esta vontade ou foco se perdeu gradualmente após minha formação na educação básica. Em retrospecto imagino que talvez seja justamente a intenção: formar porcamente a todos e fazer se perderem aqueles que mais ou menos simplesmente lutam para conquistar “seu canto ao sol” fora dos panteões universitários. Claro que grande culpa foi minha, mas não deixa de ser uma perspectiva triste agora que foi reanimada.

Ainda dentro do tema das referências deste quadrinho Paco Ignacio Taibo II (amigo do autor que também aparece como personagem) faz uma citação interessante no prólogo da segunda parte em que foi dividida a obra: “Brecht teria chamado este livro de Re-fe. É o livro das referências, dos encontros na metade de uma esquina com um século XX que não deveria se perder, dissolvido no nada. Bom faria o leitor em ler com lápis e tomar nota das freqüentes homenagens que Ángel dedica a uma foto, um quadro, um edifício, um cartaz, um poema (…). Alguém dirá: para que tantas referências? Alguém com sorte responderá: para que todas as coisas não sejam esquecidas”.

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Ángel de la Calle e seu amigo, o escritor Paco Ignacio Taibo II

Ainda diz: “Este livro é a prova de que não se pode biografar sem amor.”

E este amor de Ángel por Tina está em todas as passagens, é algo que ultrapassa a obsessão por ter durado anos (este livro demorou quinze anos para ser terminado). Cada detalhe e mistério quanto a vida dela foram exaustivamente pesquisados. Ele traz Tina para seu presente, sua realidade, inserindo referências a ela em meio a discussões com seu amigo Taibo, por exemplo.

Eu não havia visto nenhuma foto de Tina e quando finalmente a vi pude entender talvez um pouco desta adoração. Seus olhos evocam um tipo de romantismo que é quase absurdo associar a pessoa que absorvi a vida neste quadrinho.

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As duas partes de Modotti iniciam-se com mortes misteriosas: A primeira de Julio Antonio Mella (fundador do partido comunista cubano) e a segunda da própria Tina.

A vida de Tina foi bastante conturbada – como não poderia deixar de ser. Nascida na região de Friuli na Itália como Assunta Adelaide Luigia Modotti Mondini. Mudou-se para os Estados Unidos aos dezesseis anos e acabou se tornando atriz em Los Angeles no final dos anos 10 e começo dos 20, época em que conheceu Roubaix “Robo” de l´Abrie Richey um poeta com quem passou a viver. Ambos possuíam um vasto círculo de amizade repleto de artistas da época, entre eles o papa da fotografia artística Edward Weston com quem Tina começa a trabalhar e se relacionar intimamente.

Com a morte de Robo em uma viagem ao México em 1922, Tina visita o país pela primeira vez antes de mudar-se para lá trazendo consigo Weston e seu filho Brett. Trabalharam juntos até Tina adquirir um olhar próprio e começar a fotografar diversos projetos de seus novos amigos, já que na época vários artistas avant-garde movimentavam o cenário cultural e político do país. Produziu várias fotografias que foram publicadas em revistas internacionais e começou a trabalhar ativamente dentro do movimento comunista mexicano neste período, ao mesmo tempo em que se envolveu romanticamente com outros homens.

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Diego Rivera e Frida Kahlo em uma passeata, foto de Tina Modotti

Dentro do movimento comunista houve várias “auto-sabotagens” em que perseguiam seus próprios membros por desviarem-se do dogma oficial russo de Stalin, estes eram chamados trotskyquistas ainda na maioria das vezes a única coisa em comum que possuíam com este era a discordância quanto a algo.

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Tina e Diego Rivera

Expulsa do México após o assassinato de Mella em 1929 que obteve investigação inconclusiva, Tina tentou voltar para a Itália e foi impedida pelo governo fascista acabando por ficar na Alemanha, onde se tornou mais engajada dentro do movimento comunista, abandonando a fotografia e trabalhando para o Socorro Vermelho.  Mudou-se para Moscou em 1931 realizando diversas missões durante este período em inúmeros países, inclusive trabalhando dentro da Guerra Civil Espanhola até 1939 quando retornou ao México local onde faleceu.

Sobre o livro gostaria de pontuar ainda esta necessidade que Modotti tinha de se “escravizar” pela causa comunista, ela realmente doou sua vida ao ideal de forma quase cega as diversas discrepâncias que ocorriam ao seu redor. Tudo com a intenção do anonimato, nenhuma vontade de tornar-se alguém importante dentro do partido. O próprio Ángel discute sobre estes detalhes tanto com seu amigo Taibo – através de uma contrapartida da história política de Tina e a deles, como as citações a Semana Negra de Gijón, que ambos organizam – como em um engraçado paralelo de dogmas personificados em um Batman paralítico e um idoso Super-homem.

Italia Ilustración

Ángel de la Calle é espanhol nascido em 1958, começou sua carreira no final dos anos 70 na revisa Star e desde então colaborou com inúmeras publicações incluindo Besame Mucho, Rambla El Vibora ,Comix Internacional, La Nueva España e El Comercio onde publicou tiras diárias sob o pseudônimo de Adela C. De la Calle. Co-diretor da revista em quadrinhos Dentro de la Viñeta.

Aqui a história foi publicada em 2005 pela editora Conrad.

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  • Ángel de la Calle

    Muchas gracias por sus palabras a mi libro sobre Tina.
    Hablar y contar deTina es fácil, fue una mujer impresionante y humilde.
    Gracias por acercarse y leer.
    Ángel de la Calle

    • Net Vital

      Estou honrada pela atenção! Espero que através deste texto sua obra possa alcançar novos leitores aqui no Brasil.