Memórias de uma Beatnik – Diane di Prima

Por | 18/02/2014 | Sem Comentários

Existem poucas vozes femininas dentro do movimento considerado beatnik entre as quais podemos citar Joyce Johnson, Bonnie Bremser, Sam Kashner, os poucos escritos de Elise Cowen entre outras, mas a voz mais forte ainda é a de Diane di Prima.

O termo “beat” veio da gíria “beaten down” significando abatidos ou derrotados, esta gíria caracterizava grupos de jovens drogados e ladrões e foi introduzida por Jack Kerouac na expressão Geração Beat. Mais tarde em conjunto com Allen Ginsberg também assimilou “beat” nos aspectos espirituais como em beatitude, e musicais como “on the beat” de ritmo, pulsação.

Geração Beat foi cunhado por Kerouac em 1948 em uma conversa com o escritor John Clellon Holmes como forma de caracterizar uma porcentagem da juventude que vivia às margens da sociedade. Como grupo de escritores Kerouac através de On the Road (1957), Wiliam S. Borroughs com Naked Lunch (1959) e Allen Ginsberg através de seu Howl (1956) transpassaram para a escrita todo o modo de vida de uma geração libertária que rejeitava o materialismo, os padrões sociais e através de experimentação com drogas, sexuais e espirituais acreditavam em descrever um retrato verdadeiro daquilo que viviam.

Beatnik é uma expressão estereotipada que a mídia deu para produção cultural da época, cunhada por Herb Caen em um artigo de 1958 em que juntou o sufixo russo nik (de Sputnik que acabara de ser lançado no espaço). Engloba não só a literatura, mas filmes violentos, peças teatrais entre outras produções culturais.

Di Prima nasceu no Brooklyn em 1934 e abandonou os estudos durante os anos 50 para viver em Manhattan, centro de efervescência da época tendo seu primeiro livro publicado em 1958 This Kind of Bird Flies Backward, sendo este uma coletânea de seus poemas. Justamente esta é a época retratada em Memórias de uma Beatnik.

Este livro começa com Di Prima perdendo sua virgindade e segue sua vida até a primeira gravidez. Sexo é a batida e nela pulsamos pela mente de Di Prima, tão direta em suas linhas e atitudes quanto bela. Não há aqui falso pudor de nenhuma forma e através de seus inúmeros amantes e experiências temos uma ligação rápida não só com a circunstância, mas com a atitude “cool” de se lidar com a sexualidade.

Claro que algumas horas esta coisa estóica de desprendimento emocional acaba por vir através de lutas internas da autora, afinal esse é apenas o começo do amor livre que atingiria o ápice com o movimento hippie posteriormente. Ao contrário dos hippies, no entanto, o “beat” é sujo, desmazelado. Os limites ultrapassados é algo a ser apreciado e experenciado, libertador de mentes e almas.

Da mesma forma vemos que a autora não é ligada a coisa de classificações de sexualidade nem ao feminismo, tudo deve ser explorado, mas algumas rusgas da moralidade ainda estão sendo rompidas – como em uma passagem no livro em que se sente feliz ao cuidar de seus três homens.

Mas afinal, este foi um livro encomendado por Maurice Girodias em 1969 quando a autora precisava de grana e toda vez que mandava o manuscrito pronto recebia de volta com a inscrição “Colocar mais sexo” e assim ela fez.

Não que desvalorize a obra, mas dentro deste contexto Memórias não é ainda a biografia de Diane di Prima, que seria publicada apenas em 2001 com o título Recollections of My Life as a Woman: The New York Years. Ainda assim é um olhar único tanto da época quanto dos seres que a habitavam – temos Ginsberg e Kerouac na sua cama, Miles Davis tocando nos lugares que freqüenta – como mulher, como alguém que sabia valorizar as coisas importantes e que não queria a prisão de apenas um amante.

Claro, sua atitude pode ter mudado, evoluído, se amalgamado com outras no decorrer de seus prolíferos anos. Suas obras sempre refletindo cada novo conhecimento, acontecimentos políticos ou sociais, estudos da espiritualidade apesar de focarem estes temas através de sua vida pessoal e relacionamentos.

Afinal ela foi o elo entre os artistas de Nova Iorque e São Francisco, fundou duas editoras que focavam em escrita inovadora e poetas avant-garde (The Poets Press e Eidolon Editions) além do Teatro dos Poetas de Nova Iorque. Teve suas obras mais importantes publicadas durante os anos 70 – Cartas Revolucionárias (1971) e Loba (1978) – mesma época que se envolveu com o grupo The Diggers. Enfim, fez e aconteceu e desta forma merece ser digerida.

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Editora Nacional: Veneta

Ano: 2013

Páginas: 214