Wes Anderson

Maratona #01 – Wes Anderson

Por | 19/02/2014 | Sem Comentários

Wesley “Wes” Wales Anderson nasceu em 1 de Maio de 1969 em Houston, Texas e tem dois irmãos – Eric e Mel. Filho de Melver Anderson e Anne Burroughs que se separaram quando ele tinha oito anos de idade, ele mais tarde descreveria o divórcio como “o evento mais crucial no meu crescimento e de meus irmãos”.

Wes Anderson

Focando-se na arte o jovem Anderson dirigiu filmes em Super 8 estrelados por ele e seus irmãos, além de consumir livros avidamente o que influenciaria em muito suas futuras produções. Sobre isso relata que “Pode-se ser totalmente tomado pelo universo de um romance, especialmente quando se é jovem. Você anda com a cabeça nas nuvens e quase tudo o que se quer fazer é lê-lo”. Frequentou a escola preparatória St. John’s School em Houston onde ficou conhecido por causa de sua larga e complexa lista de produções teatrais – que frequentemente eram baseadas em histórias populares, filmes e até programas de televisão.

Wes Anderson e Owen Wilson

Wes Anderson e Owen Wilson quando jovens.

Graduou-se de St. John no final dos anos 80 e seguiu para a Universidade do Texas em Austin onde conheceu Owen Wilson, que acabaria se tornando parceiro da maioria de seus futuros trabalhos. Anderson cursava filosofia enquanto Wilson estudava língua inglesa, mas eles tinham interesses em comum. O diretor diz que se encontraram pela primeira vez “frequentando uma aula de dramaturgia juntos: nela todo mundo, umas nove pessoas, se sentavam em volta de uma mesa e discutiam peças e eu sempre me sentava em um canto – não exatamente na mesa – e Owen sempre se sentava em outro canto – também não exatamente na mesa – e nós não nos falamos por todo o semestre”. Depois disso Anderson se lembra de acabar se encontrando com Wilson e os dois “começamos a conversar sobre escritores, mas também falamos sobre filmes. Eu sabia que queria fazer algo relacionado a cinema, não sei se ele tinha percebido que esta era uma opção de verdade”. Os dois eventualmente se tornaram colegas de quarto na faculdade e começaram a trabalhar no roteiro de um filme que chamaram de Bottle Rocket. Anderson se formou em filosofia no ano de 1991.

Wes Anderson tomando uns bons drinques

Wes Anderson mostrando seu lado etílico com Adrien Brody e Jason Schwartzman.

Filmografia:

1992 – Bottle Rocket
Curta-metragem. Roteiro: Wes Anderson e Owen Wilson.

1996 – Bottle Rocket
Roteiro: Wes Anderson e Owen Wilson.

1998 – Rushmore
Roteiro: Wes Anderson e Owen Wilson.

2001 – The Royal Tenenbaums
Roteiro: Wes Anderson e Owen Wilson.

2004 – The Life Aquatic with Steve Zissou
Roteiro: Wes Anderson e Noah Baumbach.

2007 – Hotel Chevalier
Curta-metragem precedente a Darjeeling Limited.

2007 – The Darjeeling Limited
Roteiro: Wes Anderson, Jason Schwartzman e Roman Coppola.

2009 – Fantastic Mr. Fox
Roteiro: Wes Anderson e Noah Baumbach.

2012 – Moonrise Kingdom
Roteiro: Wes Anderson e Roman Coppola.

2012 – Cousin Ben Troop Screening with Jason Schwartzman
Curta-metragem. Roteiro: Wes Anderson e Roman Coppola.

2013 – Prada: Candy
Curta-metragem, comercial da Prada. Roteiro: Wes Anderson e Roman Coppola.

2013 – Castello Cavalcanti
Curta-metragem, comercial da Prada. Roteiro: Wes Anderson e Roman Coppola.

2014 – The Grand Buapeste Hotel
Com estréia prevista para 4 de abril no Brasil. Roteiro: Wes Anderson e Hugo Guinness.

Bruno Araujo

Wes Anderson
Perfeccionismo seria a melhor palavra para resumir a mágica que Wes Anderson usa para conceber seus filmes. Desde seus primeiros trabalhos já mostra traços de um diretor que da atenção de forma minuciosa a tudo que acontece na tela, mostrando que ele interfere desde o roteiro até o corte final.

Wes & Owen
Em seu primeiro curta e três primeiros longa-metragens ele trabalha com Owen Wilson no roteiro, logo, esses são concebidos pela empatia entre os dois. Nessa fase os filmes têm uma característica em comum entre eles, que são personagens com visões distorcidas da realidade, especialmente em Bottle Rocket e Rushmore onde eles confrontam outros com visões diferentes das deles, que servem como contrapeso. Em The Royal Tenenbaums esse perfil de personagem chega em um ápice, onde existe uma variedade gigantesca de pessoas excêntricas, formando um universo onde todos são assim. Esse tipo de universo eu acredito que Wes Anderson passa a incorporar em seus próximos filmes, sem colocar o excêntrico e diferente em uma balança, mas passando a usar esses perfis como uma constante.

Perfeccionismo estético
A escolha minuciosa de cores, composições e planos abertos fazem os stills de Wes Anderson se assemelharem a pinturas, onde nada está ali por acaso, mas foi pensado para o deleite de nossos olhos. Moonrise Kingdom é praticamente um tratado sobre a beleza, é a sua Capela Sistina onde cada pincelada parece ser carregada de uma visão apurada de um artista experiente. E não é errado parabenizar todo o trabalho de uma equipe dando crédito há um só homem, mas assim como um maestro, o diretor precisa tomar todas as decisões, coordenar, reprovar e reprovar, até que todos trabalhem em uma só direção que era intencionada desde o começo, e claramente essa é a posição que ele toma quando dirigi seus filmes, que tenham a sua voz.

Wes Anderson e Mr. Fox

Simbologia
Além de toda atmosfera criada por ele, existem uma infinidade de simbologias que são apresentadas como acréscimo a história que é contada, independente de qual filme se trate, algumas delas são quase sempre retratadas, como a água interferindo como força da natureza, a exploração e aventura como motivação, a profundidade dos laços familiares, esses são alguns dos mais visíveis entre muitos.

Wes Anderson atrás das câmeras

Wes Anderson no set de filmagem de Moonrise Kingdom.

Concluindo, Wes Anderson é um artista por definição e seus filmes poderiam ser expostos em galerias. Que apesar de seu semblante sereno ele deve ser um diretor com voz ativa e autoritário nos sets de filmagem, deve ser atormentado pela busca por algo perfeito e provavelmente ele deve ter TOC. Brincadeira à parte, os seus filmes te transportam para um mundo singular e belo que deve ser apreciado com olhos, ouvidos e mente.

fABRIZIO Dsc

Fim da primeira maratona do Teletílica, depois de alguns contras da natureza e de energia

Wesley Wales Anderson, Wes Anderson, uma escolha por sorteio bem acertada, um diretor autoral, foi uma grande aventura como em todos seus filmes, não uma aventura como gênero e sim como estado de espírito, buscas sem a intenção de ir atrás, mas sempre com um plano mesmo sem saber o que encontrará.

Owen Wilson, com quem tem uma grande parceria está em quase todos seus filmes seja como ator ou roteirista, que para minha surpresa supreendeu positivamente. Além de Owen, Andrew e Luke Wilson também aparecem atuando em alguns dos filmes juntamente com Jason Schwartzman, Tilda Swinton, Willem Dafoe e B.M. mantendo um casting quase que fixo.

Seus filmes parecem literaturas, quadros fotográficos. Com a maratona fica mais fácil de se pegar os easter eggs e suas esquizofrenices que estão sempre presentes, sendo impossível não procurar relação das coisas conforme cada filme em que assiste.

As cores primárias se destacam com um exagero aceitável, as vezes como uma mensagem subliminar a infância ou para dar um simples tom vintage a imagem.

Nomes latins, cenários aquáticos, bandeiras, cumprimentos, quadros, mortes, triângulos amorosos, quests, infância, citações religiosas… e maçãs.

Nos dois primeiros ele abusa de marcações dos atores até me lembrando um pouco os focos de novela, usado em muitos filmes amadores, com o zoom fixo fazendo o ator andar e voltar a marcação pegando as reações de cada um separado.

Wes Anderson

Sábado

A partir do Tenebaums, começa a percorrer com a câmera, passeando pelos cômodos, pelos vagões, pelos rastros debaixo da terra e perseguindo os personagens. Continua abusando dos seus “toques”, mas a narrativa já muda ganhando mais peso e personagens. Não tem como não falar que a partir desse a fotografia só melhora a cada filme.

A Vida Marinha com Steve Zissou, aqui onde o fuck Bill Murray (B.M.) faz o protagonista como ninguém, confesso que quase chorei na cena final. Nesse filme o diretor não esconde suas referências em relação a Moby Dick e estoura o ambiente água em que vinha aos poucos demonstrando. Homenageia os Beatles com um yellow submarine e David Bowie tendo alguma de suas canções sendo cantada por Seu Jorge em português como um papagaio pirata (Zé Carioca?).

Em seguida já não me agradou muito em Viagem a Darjeeling, talvez pela carga da maratona, também senti uma certa mistura de repetição dos filmes anteriores mudando só o cenário de fundo. O conselho que dou é que assistam o curta que o diretor fez antes desse longa para que entendam a cena final.

Domingo, último dia da maratona, faltando dois filmes, mais descansado e sem ressaca

Mesmo sendo sua primeira animação, O Fantastico Sr. Raposo fica muito fácil perceber sua direção, com tanto amarelo, vermelho, azul… e maças. Posso dizer que foi uma das melhores animações que já assisti, apesar de ter tentando deixar um pouco mais infantil, o resultado final ficou bastante maduro sem muita frescura que geralmente acontecem. Por mais curioso pra saber o final, queria que demorasse um pouco mais e mostrasse mais algumas peripécias do Mr. Fox.

Wes Anderson

Pra terminar, Moonrise Kigdom, só vou falar que assistam, entrou para minha “lista”, de todos é o que assistirei novamente em breve, ciumadamente falando é o tipo de filme que gostaria de ter dirigido, escrito e até interpretado a criança (quando assistirem entenderão).

Não considero Wes Anderson perturbador, vejo como alguém que faz cinema de verdade, um diretor autoral. Facilmente num futuro identificarei seus próximos filmes sem saber que lhe pertence…

Pós Maratona

Estouramos um cidra… de maçã.

– Nós conseguimos, não é?
– Sim, conseguimos.

Um brinde
Um cumprimento.

Net Vital

Wes Anderson é um diretor que transforma seus filmes em peças teatrais. Todos os detalhes desde o cenário quanto ao roteiro, com seus caricatos personagens exacerbam tudo o que há de confuso e louco dentro das mentes e atitudes das pessoas e principalmente dentro de sua própria.

O fluxo de suas histórias tende ao aleatório, como a vida, em que seus personagens sempre estão em busca de algo e às vezes nem sabem do que. Porém, o que valoriza é a busca em si, a aventura, que na maioria das vezes envolvem várias atitudes patéticas com resultados imprevisíveis.

Tudo começa com o curta Bottle Rocket, que mais tarde foi adaptado para longa homônimo já proveniente do que seria uma duradoura parceria com Owen Wilson.  Este curta ainda não possuiu os ângulos longos que enquadrariam suas cenas, além de ser preto e branco ao contrário de seus filmes posteriores que são ricos em cores.  Além disto, ainda se utiliza de um recurso particular com os depoimentos reais de cidadãos que defendem o porte de armas (já que a história passa-se no Texas – seu local de nascimento), como em um documentário, o que dá um tom interessante ao curta.

Seus personagens principais parecem flutuar não só em suas próprias vidas, mas na tela. Anthony – personagem de Luke Wilson – demonstra um tipo de desconforto passivo quanto ao seu lugar na sociedade e objetivos futuros, ele é levado pela maré dos acontecimentos trazidos por seu amigo Dignan parecendo olhar a tudo com olhos inocentes de alguém que sente, mas não reage por simplesmente por não saber como fazê-lo.

Bottle Rocket

O trio principal de Bottle Rocket.

Dignan – interpretado por Owen Wilson – por outro lado tem sede tanto por reconhecimento como por algo que agite seu mundo e, apesar disso, ele também tem uma visão bem particular da realidade. No decorrer do filme vemos que este personagem pode ser bastante ofensivo sem dizer as palavras erradas, isso ainda possuindo uma aura de inocência em sua busca por atenção e aventura.  Na verdade o cara é educadamente um babaca.

E, por último, temos Bobby – Bob Mapplethorpe – riquinho filinho de papai e zoado por seu irmão mais velho, o Future Man (personagem de Andrew Wilson) este que é um agente simbólico de toda uma classe de boyzinhos que tem o futuro promissor inteiramente traçado à sua frente.

São quase como crianças brincando de encontrar seu lugar no mundo, losers sem entender ou desejar ter o que representa ser um vencedor. Uma das particularidades de Anderson é como consegue passar significado sem nunca nos contar exatamente o que acontece…

“We did it, though, didn’t we?”

A cena final é quase um fechamento nonsense, e a impressão que me passou de Dignam andando em slow motion em meio a uma fila de prisioneiros de macacão – uniforme similar ao que tinha feito para si previamente na história – é de que ele além de ter encontrado o seu lugar e finalmente se provado, que talvez todos os prisioneiros que seguiam em fila também tinham um pouco desta visão personalizada da realidade: em que algumas ações que parecem sem sentido para outras pessoas, para eles poderia ser tudo. O que os justificava como indivíduos.

O sentimento geral em Bottle Rocket (tanto o curta, como o longa) é de que todos os personagens estão total e inevitavelmente perdidos e se validam por essa “aventura” que é a vida. Rushmore, seu segundo longa, já é algo muito mais concreto.

“When one man, for whatever reason, has the opportunity to lead an extraordinary life, he has no right to keep it to himself”
― Jacques-Yves Cousteau

A evolução é enorme e, para mim, Rushmore continua sendo até hoje sua melhor obra. As cores, o figurino retro, a divisão de “atos” pelos meses, a primeira “musa” fumante – aqui disputada por Herman Blume (Bill Murray) e Max Fischer (Jason Schwartzman em seu primeiro papel) – a trilha sonora maravilhosa e as cenas em câmera lenta que viriam são exemplos de recursos que viriam a marcar todas as suas histórias.

Neste filme Wes Anderson trabalha um roteiro seco, cheio de atos que causam vergonha-alheia (como comumente acontece em suas histórias) e com personagens “perdedores” cheios de personalidade tentando encontrar aquilo que os fará viver – seu Rushmore, no caso.

Herman Blume: What’s the secret, Max?
Max Fischer: The secret?
Herman Blume: Yeah, you seem to have it pretty figured out.
Max Fischer: The secret, I don’t know… I guess you’ve just gotta find something you love to do and then… do it for the rest of your life. For me, it’s going to Rushmore.

Todos os símbolos que viriam a aparecer posteriormente, a que Anderson tem fixação, já estão presentes nesta película de maneira sutil. Adoro, por exemplo, a maneira como trata as crianças ou adolescentes: nunca como seres inocentes ou sem inteligência, muito pelo contrário, normalmente tem mais consciência sobre algumas coisas do que seus personagens adultos.

Esse tema volta a ser trabalhado em Excêntricos Tenembaus, já com a perspectiva de “crianças geniais” que se tornam perdidas quando crescem.  Isso e seu constante deslumbramento em juntar pessoas com características formidáveis em grupos, fazendo-os lidarem uns com os outros, como reflexo da família e sociedade. Tenembaus tem como maior característica conseguir ser tão cômico quanto dramático de forma que não sabemos exatamente do que estamos rindo. Além de Gene Hackman estar fabuloso (todas as atuações estão ótimas, mas ele excede-se).

Elenco de Tenenbaums

Elenco de Excêntricos Tenenbaums.

A Vida Marinha de Steve Zissou parece não ter tido tantos apreciadores, apesar de ser formidável (meu segundo favorito). Este é um filme homenagem em todos os sentidos, a água (tema tão recorrente em seus filmes) trás uma inundação de símbolos e paixões do diretor: na trilha sonora com David Bowie e Beatles, no estilo dos filmes de seu herói Steve Zissou (ele mesmo moldado através de Jacques Cousteau), no stop motion, nos diversos sotaques dos integrantes da tripulação, entre outros. Talvez seja sua obra mais particular devido às diferenças que o diretor explorou na maneira de contar a história.

Com Viagem a Darjeeling (e seu curta Hotel Chevalier) retornamos ao tema da família e assim como Steve Zissou e Tenembauns, focando a relação dos filhos com o pai. Similar aos predecessores visualmente e em dinâmica nós acompanhamos os três irmãos (Own Wilson, Adrien Brody e Jason Schwartzman) em paisagens maravilhosas da Índia, das quais Anderson pôde abusar plenamente em sua câmera.

Ainda que seja um retorno ao tema, tenho a impressão de que este é muito mais intimista, mergulhando sem medo nas relações conturbadas de seus personagens que desta vez realmente estão em uma aventura, atravessando desafios a cada nova parada do trem que representa a vida.

Logo temos O Fantástico Senhor Raposo, única animação até o momento com vozes de seu cast recorrente (Murray, Schwarzman), além da adição de George Clooney e Meryl Streep como protagonistas. Esta é uma adaptação de um livro infantil de Roald Dahl e apesar de eu adorar stop-motion e este filme ser uma beleza estética, não me maravilhou tanto quanto suas obras pessoais – ainda que encontremos os símbolos que marcam suas obras.

Por último, mas não menos importante, há Moonrise Kingdom com sua ode a infância. Esta uma obra que o autor conseguiu misturar fábula, crítica social, heteronormatividade, destino, obrigação social (representados pela recorrente arca de Noé e sua inundação), além de outras tantas influências (mesmo de outros filmes) de maneira rica e bela é um deleite aos olhos e mente.

Para finalizar digo que este é um diretor que produz obras extremamente pessoais, ainda que semelhantes de algumas maneiras. É como se ele próprio estivesse lidando com seus problemas, neuras e idéias dentro da ficção – por isso talvez a semelhança com o teatro, o quadro, a coisa estética brilhante de excentricidade única que a seus olhos nos tornam tão estranhos e particulares quanto formidáveis.

~

Para mais conteúdo acesse nossa sessão Ressaca, a qual é lançada junto com a Maratona.