Madame Satã

Por | 13/03/2014 | Sem Comentários

 

Delicioso filme brasileiro de 2002 em que estrearam trabalhando em um longa-metragem tanto o director Karim Aïnouz, quanto Lázaro Ramos que interpreta o protagonista João Francisco dos Santos, que entre seus diversos cognomes estava Madame Satã.

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João Francisco dos Santos

João Francisco se transformou em lenda dentro das noites cariocas durante a primeira parte do século XX. Transformista, homossexual assumido, malandro, capoeirista, João foi preso diversas vezes e por diversos motivos (que ajudaram a lhe dar fama). Entre eles o de bater em policiais enquanto defendia as putas, homossexuais e moradores da Lapa, região em que residia. Para saber mais aconselho fortemente a lerem a deslumbrante entrevista que deu ao jornal O Pasquim em 1971.

O filme de Karim ao contrário do que normalmente acontece retrata a vida de João Francisco antes de ser coroado com o apelido que intitula o filme, o que ocorreu durante o carnaval quando desfilou no bloco de rua Caçador de Veados com uma fantasia inspirada no filme Madame Satan de Cecil B. DeMille (alguns dizem que foi em 1938, outros em 1942).

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roupa original do filme de DeMille

A história basicamente retrata a vida de João (Lázaro Ramos), a meretriz Laurita (Marcélia Cartaxo) e Tabu (Flávio Bauraqui) outro homossexual na zona da Lapa durante os anos 30. Estes dividem uma casa e se revezam a fim cuidarem da filha de Laurita.

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João, Laurita e a menina.

Adoro este filme, podem dizer o que quiserem sobre a detalhes como a caracterização condizente à época ou das edições nas cenas de luta, para mim o próprio espírito deste filme é transgressor. E que diálogos! Uma avalanche de preciosidades uma disparada logo em seguida da outra, que me encantam assim como as interpretações performáticas de Madame. Lindo apenas.

A meu entender é um filme simples e ao mesmo tempo chocante, com aquele peso histórico trazendo a sensação de que apesar do tempo passar alguns absurdos de comportamento e preconceitos continuam os mesmos. Infelizmente não temos mais Madame pra dar uma porrada nestes infelizes.

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Justamente na crueza na maneira de se contar a história é que o diretor me ganhou. Nada de dramalhão mexicano, é pá pum.

Engraçado é que esta película foi mais bem apreciada internacionalmente do que aqui, o que se observarmos o início da carreira do diretor Karim Aïnouz parece plausível, ainda que seja irritante.

Ganhou diversos prêmios incluindo o de melhor filme no Festival de Havana em 2002, e está altamente recomendado por esta que vos fala.

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