Lugar Nenhum – Neverwhere

Por | 05/02/2014 | Sem Comentários

História originalmente criada por Neil Gaiman e Lenny Henry em forma de roteiro para um seriado de televisão, que contendo seis episódios foi ao ar em setembro de 1996 pela BBC. Posteriormente, mas ainda neste ano, foi transformado em romance e é conhecido por ser realmente o primeiro livro publicado por Neil Gaiman, já que seu anterior Good Omens foi co-escrito com Terry Pratchett em 1990.

Honestamente após ter lido esta história meu comentário único é que o livro não deveria ter sido feito. Sim, eu adoro os outros trabalhos do Neil Gaiman como Stardust, Coraline e principalmente Sandman que certamente é uma das coisas mais belas que tive o prazer de conhecer, e é por isso mesmo que faço a afirmação acima. Sua leitura foi extremamente decepcionante e me desencorajou até este momento a sequer ir atrás de outro livro de sua autoria.

Tão forte assim? Sim. Deixem-me explicar.

Visualmente a história funciona já que tem aquela abstração fantástica característica do autor, como se ele visse a tudo através de uma bruma própria que o leitor reconhece. Neste caso o efeito está exposto por um mundo paralelo da Londres verdadeira, chamada de Londres de Baixo, esta basicamente subterrânea compõe os locais reais da cidade como nomes de ruas, estações de metrô e lhe dão um significado mítico ou em forma de personificação. Como Blackfriars que é uma área no centro de Londres e no livro transformam-se em uma sociedade de monges negros.

O protagonista Richard Mayhew é um insalubre jovem escocês preso de forma apática a uma vidinha modesta que provavelmente nem ele sabe como conseguiu, é noivo de uma criatura hedionda apelidada de Jess a quem não ama e reage passivamente diante de tudo o que o cerca. Alcança seu chamado para a aventura quando vê jogada no chão e ferida a garota Door, a quem decide ajudar contrariando sua noiva.

Por ter interferido na vida de Door, Richard se condena a vagar pela Londres de Baixo local onde a garota reside. Perdendo qualquer conexão com a Londres de Cima o protagonista fica sem ter lugar de origem, em meio ao Lugar Nenhum do título da obra.  Assim resolve continuar a ajudar a garota a fugir de seus dois caçadores, os seres chamadas Sr. Vandemar e Sr. Croup. Isso ao mesmo tempo em que procura alguma maneira de voltar a viver “em cima”.

Richard é um personagem principal bastante irritante em minha interpretação, mas por ser um imigrante escocês conseguimos acompanhar através de seus olhos esta jornada inusitada já que mesmo que este reconheça alguns dos lugares que atravessam na cidade, ainda assim temos a perspectiva de alguém que não é íntimo desta geografia – ou seja ele cumpre seu papel de guia, mesmo que não tenha me causado simpatia.

Este detalhe – o de ser um completo estranho nas entranhas citadinas de Londres – me deixou frustrada justamente por que gostaria de entender melhor os diversos trocadilhos e invenções que Gaiman se utilizou para mostrar uma cidade apenas vista por ele. Imagino que o recurso deva ter funcionado bem melhor no seriado, ainda que o próprio autor tenha reescrito a história duas vezes: a primeira para aliviar estas referências na versão estadunidense e a segunda para harmonizar as duas versões anteriores.

Não é só isso, achei o tom muito infantil além de a história ser bastante previsível, o que dificultou bastante qualquer conexão. Talvez a culpa seja minha por ter lido muitos livros com esta temática (que envolve mundos desconhecidos e o protagonista forçado a seguir por um caminho às cegas) e a experiência me deixou vacinada e impaciente com os lugares-comum deste tipo de narrativa. Não vou dizer que os detalhes referentes à contraposição da realidade suja de uma cidade real e um mundo irreal paralelo e desregrado não me atraia, principalmente no ponto de vista de Gaiman em que a magia engloba essencialmente a mistura entre o caótico e o místico de forma levemente soturna. Porém os próprios personagens são tão insossos quanto a trama principal salvando-se apenas os figurantes – como os ratos, a Lamia e o Marquês de Carabas – ainda com ressalvas.

O próprio Richard é tão sonso no livro que eu torcia para que ele morresse e a história tivesse algum tipo de twist final. Porém, novamente, imagino que no seriado um protagonista tão reticente e fraco discreparia de forma interessante com os aspectos cenográficos ou de caracterização, ou seja, esta história possui mais cuidado estético do que no arco da história.

Desafios à parte que tenderam a dois finais ruins – o primeiro pela presibilidade e o segundo pela falta de necessidade – o mundo criado aqui por Gaiman ainda teve algumas adaptações, como: uma série de quadrinhos apenas inspirada pelo original que foi escrita por Mike Carey (que já tinha feito Lucifer spin-off de Sandman) e arte de Glenn Fabry em 2005; algumas encenações no teatro e mais recentemente em 2013 uma peça na rádio BBC com as vozes de James McAvoy como Richard Mayhew e Benedict Cumberbatch como Islington.

Elenco que encenou a versão no rádio de Lugar Nenhum em 2013

Elenco que encenou a versão no rádio de Lugar Nenhum em 2013

De qualquer forma se você ainda tem curiosidade e não está familiarizado com leitura nem com histórias com tramas semelhantes, eu até indico. O livro não é mal escrito, apenas comum demais para alguém com a imaginação e habilidades como Neil Gaiman.

 

Edição Nacional – Conrad

Ano – 2010

Páginas – 334