Lost Girl – Primeira Temporada

Por | 26/02/2014 | Sem Comentários

“A vida é difícil quando você não sabe quem você é. É mais difícil quando você não sabe o que você é. Meu amor carrega uma sentença de morte. Estive perdida por anos. Procurando enquanto me escondia. Apenas para descobrir que eu pertenço um mundo oculto dos humanos. Eu não vou esconder mais. Vou viver a vida que escolhi”. – Frase de Abertura da Série.

Com treze episódios esta primeira temporada de Lost Girl nos apresenta ao mundo escondido dos Fae, que são criaturas sobrenaturais provindas de mitos das mais diversas nacionalidades e misturam-se aos humanos já que necessitam destes como fonte de alimento (seja físico ou em forma de energia).

Em seu episódio piloto somos apresentados a Bo (Anna Silk) que presenciando uma tentativa de estupro salva a garota em questão matando seu agressor. O nome desta potencial vítima é Kenzi (Ksenia Solo), uma linda e divertida mulher que possui a malandragem das ruas, sobrevivendo de pequenos golpes e fugindo da polícia. Ambas logo se tornam unidas, com Kenzi questionando a bizarra morte do homem que tentara estuprá-la, já que Bo sugou uma fumaça azul de sua boca até que este caísse duro. Super normal.

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Bo e a “fumaça azul”

Enquanto Bo planeja outra fuga – ela tem certa experiência neste tipo de situação – vemos em paralelo a investigação da morte efetuada por Dyson (Kris Holden-Ried) e Hale (K.C. Collins), dois policiais nada normais que percebem o toque sobrenatural na morte e logo rastreiam nossa protagonista, raptando a mesma na cara de uma estupefata Kenzi.

Dyson e Hale levam Bo na presença do Ash, que questiona se ela é uma Fae da Luz ou das Trevas e como ela havia conseguido ficar escondida por tanto tempo, só que Bo não faz idéia do que o homem está falando. Porém nem O Ash nem a mulher a quem chamam A Morrigan acreditam nela ao ponto de interrogá-la por horas antes de libertá-la para um exame físico com a Dra. Lauren.

Apenas então Bo descobre (por meio da médica humana) que faz parte de um grupo de seres mágicos chamados Fae e que ela agora deve escolher entre os clãs da Luz ou das Trevas, para obter destes tanto proteção quanto orientação à respeito de seus poderes.

Bo é uma súcubo (o termo masculino é íncubo) e se alimenta do chi (força vital) humana sugando o mesmo por suas bocas, ou através de energia sexual – precisando se alimentar com certa freqüência para não entrar em estado de abstinência. Pode também seduzir e manipular tanto humanos quanto Fae através do contato com a pele, e no caso de Faes ela também acaba absorvendo algumas características do poder destes (mais ou menos como a Vampira dos X-Men).

Após receber parte desta informação (já que aprende melhor sobre os seus poderes ao decorrer da temporada) ela é levada novamente aos líderes da Luz e Trevas, estes que possuem os títulos de governantes: O Ash e A Morrigan, respectivamente. Exigem então que Bo realize O Teste, em que depois de sobreviver a uma luta com dois Fae deverá escolher entre um dos clãs.

Salva por Kenzi (ela miraculosamente descobriu seu paradeiro) Bo finaliza O Teste e declara que escolherá o clã humano em vez das duas outras opções, o que desagrada aos líderes ao ponto de Bo só ser salva de uma sentença de morte pela interferência de outro Fae chamado Trick (Rick Howland). Este aponta o fato curioso de alguém ter escondido Bo das autoridades e que seria mais sábio deixá-la viva para entender o motivo, e assim acaba convencendo estes líderes a deixar Bo seguir seu próprio caminho – pelo menos naquele momento, já que continuarão a pressioná-la a escolher um clã.

Finalmente libertas, Bo e a humana Kenzi saem cientes que á partir deste momento a verdadeira aventura está para começar.

 

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da esquerda: Trick, Hale, Dyson, Bo em pé, Kenzi e Lauren

Através da série os relacionamentos entre os personagens se desenvolvem, sendo que Bo acaba abrindo uma agência de investigação por influência de Kenzi com quem vai  morar já que as duas se tornam boas amigas. Contam com a ajuda recorrente de Dyson e Hale que revelam suas identidades Fae com o tempo, assim como Trick, o dono do pub The Dal Riata. O bar além de ser fonte de sustento de Trick é cenário recorrente na série e também um santuário (local neutro) para tanto Faes da Luz como das Trevas.

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Bo e Kenzi com uma das inúmeras perucas que usa na série

Ainda que o tema da série não seja exatamente inovador seu roteiro sempre trabalha bem todos os personagens  e sempre evita os lugares-comum ao desenvolver suas características. Isto é visto já claramente por terem optado em ter uma heroína em vez de um homem como protagonista, e não só isso mas esta heroína irá ser explorada além da bidimensionalidade que geralmente encontramos, como por exemplo: Bo é bissexual e por ser uma súcubo é confortável com seu próprio sex appeal, mas ela também é uma personagem de ação (quebrando a bunda de vários antagonistas no soco e no chute mesmo).

Lost Girl utiliza-se do monomito para criar uma heroína forte e realista. Trata-se de uma mulher e não uma garota (como em Buffy, que eu também gosto) e seus relacionamentos amorosos tanto com a doutora Lauren como com Dyson são retratados através de uniforme sinceridade, sem ter aquele carregado tom platônico de “par ideal” e conseguindo ser sexy sem “apelação”. Todas as relações entre os personagens de apoio como Trick, Hale e Kenzi são repletos de divertidos diálogos, o que ajuda a equilibrar a história carregada de eventos extraordinários.

A bissexualidade de Bo é abordada de forma verdadeira e sem nenhum tipo de peso arrastado que fica evidenciando o assunto. Ela sente atração pelo personagem e fim. Não precisa de mais nada.

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Bo com seus “interesses amorosos” Dyson e Lauren

Devo dizer que partes de Lost Girl me lembraram a série de livros sobre Georgina Kincaid de Richelle Mead, mas felizmente aqui não existe a dualidade abraâmica de “bem” e “mal”.  Apesar de haverem Faes da Luz e das Trevas esta classificação é muito mais abrangente do que parece em primeiro momento, já que ambos os clãs possuem membros de caráter duvidoso. Neste âmbito talvez se aproxime mais da série de Laurell K. Hamilton sobre a personagem Merry Gentry (sem o harém de homens, claro) que também trabalha com os fae da Luz e das Trevas. Ou até a maravilhosa série Fever de Karen Marie Moning que também tem faes como tema.

Ainda que seja uma série procedural (um caso por semana) o fato de Bo viver ás margens do mundo sobrenatural lhe dá as mais variadas liberdades para resolver seus “casos”, que assemelham-se mais com a coisa “você paga nós fazemos” de shonens como Gintama e do anime de Devil May Cry, do que uma série policial, por exemplo. Os casos não precisam envolver crimes, apenas a necessidade de investigação.

Já comparando com Supernatural apesar da semelhança no formato (procedural) e temática, existem mais diferenças do que elementos em comum. Por exemplo, a presença de “incorporações” míticas vastas com aparência humana – até dragões aparecem como humanos em Supernatural – não ocorre totalmente em Lost Girl, mesmo que este último tenha obviamente um orçamento menor. Além disto o alívio cômico de Kenzi, e o balanço de realidade que ela traz, ajuda bastante ao lidarmos com cada informação nova de fantasia da série.

Apesar de eu ainda acompanhar Supernatural reconheço os diversos pontos que estão congelados em seu enredo. Como existem poucos personagens (até coadjuvantes) a serem desenvolvidos as relações interpessoais ficam muito demarcadas (amor fraternal semi-incestuoso) e acabam a longo prazo se repetindo (e cansando). A coisa dos heróis sujos que caçam os “monstros” ainda mais sujos através de seu julgamento dúbio (e algumas vezes hipócrita) também não ocorre, já que em Lost Girl a moral e motivação de todos os personagens sempre são trabalhadas de forma realista – no sentido de termos exemplos de comportamento não ideal destes e isto ser usado na construção de seus personagens. Fora a misoginia estranha em Supernatural que impede o amadurecimento emocional dos personagens e é simplesmente abjeta. Este comentário se deve a ferrenha briga que existe nos fandoms (domínio de fãs) de ambas as séries.

Para finalizar devo dizer que me agrada bastante o tratamento científico pontuado pela presença da doutora Lauren, com sua curiosidade inerente a tudo o que é fantástico. Ela é um reflexo dos telespectadores que tentam digerir e entender de forma racional os acontecimentos ao redor – assim como Kenzi tira o sarro destas situações extremas.

E para quem despreza séries sobrenaturais eu digo: o escapismo sempre estará por aí, mas sempre vou encontrar como interessante o extravasar da imaginação dentro da fantasia. Para mim quanto mais absurdo mais divertido.

Lost Girl é um seriado canadense do canal Showcase criado por Michelle Lovretta que estreou em 2010, possuindo atualmente quatro temporadas.