Liquid Television

Por | 11/04/2014 | Sem Comentários

Alguns talvez se lembrem das chamadas da MTV Brasil, que eram feitas normalmente por animação e que tinham sempre algo de inusitado. Estas que serviam para atrair a atenção, antes que o logotipo do canal com seu grande M aparecessem na tela, era um filhote fidedigno do recurso originalmente incorporado pela MTV em seus primórdios.

Desta forma o relacionamento da MTV com as animações da Colossal Pictures iniciou-se pela produção destes vídeos curtos em 1981, e quando a ideia para um programa dentro do canal apenas com animações surgiu esta parceria apenas auxiliou em sua produção. Assim surgiu a Liquid Television.

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Logo original do programa

Liquid TV é uma antologia contendo os mais variados e estranhos vídeos curtos que envolviam desde stop-motion, algumas das primeiras utilizações de animação computadorizada, mistura de atores com cenários animados e outros sortilégios dos mais inventivos que auxiliou a divulgar diversos artistas e obras excepcionais.

Ao início como uma co-produção com o canal BBC-Two o show foi televisionado por este até junho de 1991, foi então que a MTV encomendou as três temporadas que compõem esta fase e que duraram até o ano de 1994. Os vídeos eram sempre originais, ainda que algumas das primeiras obras tenham sido financiadas após divulgação dentro do Spike and Mike´s Sick and Twisted Festival of Animation que até hoje projeta novos autores de animações independentes. 

Dentro de 30 minutos que era a duração de cada episódio, de oito a quinze projetos independentes eram exibidos, sendo que alguns destes tornaram-se posteriormente séries únicas produzidas pelo canal após o sucesso de seus curtas. Dentre eles temos, por exemplo, Aeon Flux (de que falarei melhor em um futuro próximo) e Beavis and Butt-head.

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Beavis and Butt-Head de Mike Judge

Com a introdução sonora composta por Mark Mothersbaugh (co-fundador da banda Devo) ainda existiu dentro do programa um grande número de adaptações animadas dos trabalhos publicados na revista compilada RAW de Art Spiegelman, incluindo o trabalho de Charles Burns chamado Dog-Boy.

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Dog Boy baseado na obra de Charles Burns na RAW magazine

O interessante do Liquid Television era não só a aleatoriedade do programa em si, sem estrutura fixa a que estamos acostumados, mas sim o fato de alguns dos vídeos serem totalmente nonsense. Era uma legítima exploração artística dentro de um canal de televisão enraizadamente “pop”. Sobre isto o diretor de criação/co-produtor executivo Japhet Asher manifestou-se na época em uma entrevista no jornal Los Angeles Times “É uma programa livre de zap (zapear – mudar de canal constantemente). Se você não está gostando do que está assistindo é só esperar dois minutos e algo novo começará.”  

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Aeon Flux de Peter Chung

Alguns seguimentos do programa, incluindo-se os primeiros curtas de Aeon Flux, foram lançados em duas fitas de VHS em 1990 intituladas de The Best of Liquid Television. Outra coleção chamada Wet Shorts, editada dessa vez em DVD e VHS, também foi lançada ainda durante o período de exibição do programa. Ambas se esgotaram rapidamente, o que deixou os fãs carentes após o fim do programa em 1994 durante todo o período que precedeu a divulgação dos mesmos no youtube.

Porém em outubro de 2011 a MTVX, um dos canais da rede MTV nos Estados Unidos, anunciou o retorno do programa que até hoje acontece. Foi criado um portal onde podemos encontrar os vídeos desta primeira leva, além dos curtas de sua reformulação e séries originais como Aeon Flux e Daria.

Justamente por causa da carência de informações e métodos de exibição durante o começo dos anos 90 é que a Liquid Television teve grande importância na divulgação de obras de diversos artistas, ainda que não exista desvalorização no retorno do programa após a popularização do acesso a internet a meu ver. Isso por que bem sabemos que as mídias televisivas abusam da letargia de seus telespectadores para mostrar aquilo que lhes aprouver, ainda mais em conjunto de uma internet multinformativa. A dificuldade em se transmitir obras inovadoras, que desconstroem aquilo que captamos facilmente, continua ainda hoje e para isso também nós do Teletílica estamos aqui. Divirtam-se!

Aqui lista dos episódios das três temporadas iniciais.