Licor de Dente de Leão – Ray Bradbury

Por | 27/02/2014 | Sem Comentários

Como começar a falar do que se tornou meu segundo livro favorito? Talvez pela surpresa de encontrar obra tão rica de um autor fortemente conceituado a quem nunca tinha ouvido falar em minha vida?

Sim, para mim o estadunidense Ray Bradbury (1920-2012) foi uma surpresa. Já havia ouvido sobre seu popular livro Fahrenheit 451 e provavelmente uma ou outra citação, mas como não havia lido nada que fez, continuou incógnito. Agora, ao saber de sua vasta produção contendo mais de trinta livros, além de por volta de seiscentos contos, podemos dizer que está devidamente “marcado” como autor a ser devastado futuramente. De tal forma me impressionou que quando descobri que morreu em 2012 com 91 anos chorei um pouco.

Essa estranheza em descobrir algo que sempre esteve por aqui talvez seja o início da maravilha que é a linguagem provinda de Bradbury em Licor de Dente de Leão. O homem era um mago que apesar de ser conhecido como autor de ficção científica, não concordava com isso dizendo “Eu defino ficção científica como a arte do possível. Fantasia é a arte do impossível”.

Ainda que Licor de Dente de Leão tenha até uma cratera na Lua nomeada em sua homenagem no ano de 1971, sua leitura foi obviamente uma prazerosa surpresa. Originalmente a obra foi intitulada Summer Morning, Summer Night em que a história se passava na cidade chamada Green Town, um pseudônimo de seu local de nascimento Waukegan, Ilinois. Antes da publicação, porém, Bradbury decide remodelar o escrito original retirando apenas dezessete das histórias escritas e utilizando mais três novas a fim de conectar tudo de forma diferente. Daí nasceu Licor em 1957.

Em 2006 ele publicou finalmente as partes restantes do escrito original com o nome de Farewell Summer, além de ter reunido todos os outros fragmentos de cenas não publicadas e outras histórias quaisquer que tivessem relação com Green Town com o nome primeiramente intencionado de Summer Morning, Summer Night em 2007.

Trata-se de um verão no ano de 1928 em uma cidadezinha pequena do interior em que encontramos Douglas e Tom Spaulding, dois irmãos de doze e dez anos respectivamente, que nos guiam por suas diversas descobertas durante as memórias de Bradbury.

O Licor do título é produzido todos os verões pelo avô dos garotos e representa a “colheita” desta temporada memorável. Durante os primeiros capítulos ainda somos balançados levemente, nos acostumando a linguagem poética do autor que é cheio de cheiros e texturas através deste olhar infantil.

Através deste olhar tão particular é que cada corda de nossa mente vai sendo marcada pelos dedos hábeis de quem nos conduz. Ainda que seja e evoque a voz da infância, não é dela que provém, trata-se apenas de um eco sábio de quem já teve oportunidade de estudar a natureza desta maneira tão única de absorver o mundo. De alguém mais velho e experiente, como o autor era em 1957, que através do tempo pode apreciar tanto a beleza do funcionamento da imaginação de uma criança, quanto sua simplicidade.

Assim quando Douglas descobre o significado de “estar vivo”, essa compreensão é tão fantástica pela inocência que o personagem evoca, quanto pelo o peso que apenas anos de vida podem dar e que advém unicamente da maturidade do leitor.

Podemos ver novamente este tipo de reflexo presente/passado nos Capítulos 4 e 5 em que Douglas consegue passar ao vendedor de sapatos a importância de adquirir tênis novos instigando o homem a calçá-los (já que faziam anos que só usava sapatos e não tênis). Esta é uma metáfora perfeita já que no decorrer da história nós também iremos “calçar os tênis” de Douglas, Tom e os outros seres perdidos daquele verão.

Máquina da Felicidade, Máquina do Tempo e Máquina Verde

As máquinas dentro desta história sempre têm uma carga a serem consideradas tanto em sua utilidade como em verdadeiro significado. Discutirei evitando revelar informações que estragariam a leitura:

A Máquina da Felicidade: A construção de uma Máquina da Felicidade foi sugerida por Douglas e seu avô a Leo Auffmann, um dos moradores da cidade, que foi seduzido pela idéia. A intenção da mesma é de evitar que qualquer mal atinja a pessoa que a utilize, tornando-a feliz para sempre.

A produção da Máquina da Felicidade ocupou alguns capítulos que se alternavam com outras histórias, das quais se encontra Os Sons do Verão. Existe um belo paralelo entre ambas já que neste último o avô Spaulding questiona a troca de seu gramado natural por um sintético que cresce até determinado ponto apenas. Em ambos fica evidente o questionamento de Bradbury sobre os tidos “melhoramentos” modernos. Para qual propósito? Seria a facilidade a melhor saída?

Máquina do Tempo: Preciosa, tão preciosa é esta Máquina do Tempo! Fiquei aterrada com sua beleza. Da mesma forma sou de opinião que é um excelente contraponto para os capítulos que tratam sobre a idosa Sra. Bentley, esta que possui o costume de guardar diversas tralhas ao decorrer dos anos com o intento de preservar suas memórias de tempos passados.

Máquina Verde: Trata-se de uma espécie de moto dirigida pelas duas senhoras idosas Senhoras Fern e Roberta que se trancam dentro de casa após atropelarem outro morador da cidade. Vejo como um exemplo perfeito de metáfora para o modo como nós nos utilizamos de “modernidades” em nossa rotina: Com uma perigosa essência de orgulho e preguiça misturada com falta de direcionamento e atenção.

Acho que a partir do capítulo 14 em que os garotos Spaulding ajudam a limpar os tapetes enquanto “brisam” nos desenhos e formatos contidos neles eu já estava perdida pela história. Tenho de citar ainda a beleza dos capítulos O Cisne e A Bruxa das Cartas de Tarô que caíram sobre mim como chuva.

113853317SZ

Edição Nacional: Bertrand

Ano: 2013

Páginas: 266

E é com todo o SABOR que retirei deste livro que indico aqui no Teletílica.