IDA E VOLTA

Por | 16/04/2014 | Sem Comentários

Essa HQ contém duas histórias ambientadas no metrô de São Paulo, e essa premissa já foi suficiente pra me convencer a adquiri-lá. Como o título já diz, você lê uma na ida e outra na volta. Ambas roteiro de Raphael Fernandes.

A arte da capa foi baseada no desenho do bilhete (passe) do metrô.

Depois de ler uma das histórias vire o álbum para ler a outra.

Raphael Fernandes

Raphael Fernandes

A primeira história “Uma Viagem ao Paraíso Perdido” tem o próprio autor ilustrado como o protagonista. Seguimos sua breve “passagem” dentro do metrô em direção a Vila Madalena onde trabalha, sendo que para chegar até lá teria que fazer duas baldeações, uma na estação Sé e outra na Paraíso.

Ele parece até que está escrevendo enquanto está presenciando, é sua visão julgadora diante de algumas situações; mesmo que o metrô esteja lotado, as pessoas ignoram a presença uma das outras, incluindo o que é falado nos auto-falantes. Essa história é sobre isso, o aviso mais perturbador de todos:

“Paramos temporariamente para retirada de objeto na pista.”

Depois disso ele tenta interpretar o que seria esse “objeto”, com que frequência isso acontece, mostra sua indignação com a falta de consideração de algumas pessoas e sua fraqueza diante da curiosidade.

A arte ficou por conta de Doug Lira e Rafael Louzada, com traço limpo, claro, despreocupado com quadros fáceis de entenderem. A Ida possui excelentes sacadas rápidas com a ajuda da edição e cortes de uma página pra outra.

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Já na volta em O Tempo não Espera a coisa é totalmente diferente da anterior, o roteirista mostra sua versatilidade com uma história totalmente oposta, mas no mesmo cenário com uma situação surreal. Aqui se passa a história de um rapaz de 25 anos que vai de metrô para um encontro, mas gosta de chegar atrasado para abalar a segurança das garotas.

Quando se despede da garota, acaba cochilando no metrô quando está voltando para casa. Ao acordar sai correndo desesperado na próxima estação. Já na rua, percebe que as coisas estão diferentes, que viajou 20 anos para o futuro e algumas situações faz lembrar de seu encontro. Então decide retornar para o metrô para talvez conseguir entra no “portal” de volta para seu tempo.

Pedro “Pedrada” Henrique quem doou seu traço ríspido, com desenhos mais escuros e sujos dando uma cara mais de Rua Augusta (no começo ele aparece na estação Consolação), trabalha bastante as sombras com hachuras, quadros desuniformes, lembrando a obra de O Grito (Edvard Munch)

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Resumindo: a metáfora que eu fiz, foi que esse quadrinho narra o dia típico de um paulista até seu destino, com traços mais descansados e disposto a questionar o que observa no trajeto dentro do metrô indo para o trabalho, passeio ou um encontro. Na volta, desengonçado, “quebrado”, despreocupado com qualquer tipo de pressão, tem a impressão do “tempo passar mais rápido” em seu momento de descanso.

Raphael Fernandes é editor da MAD, do blog contraversão e dos quadrinhos da Editora Draco. Também é roteirista de outras duas HQs – Ditadura No Ar e Apagão (esse último foi financiado pelo Catarse ano passado).

Atenção: Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma.