Gone Home Músicas

FDB #01 – Gone Home dá um papel de destaque para a música indo além da trilha sonora

Por | 08/01/2014 | Sem Comentários

Para iniciar essa minha coluna decidi começar por um jogo e também um tema que muito me agrada, resolvi abordar a importância da música em Gone Home, que em 2013 chamou a atenção por sua forma inovadora de narrativa. Ele teve em todo seu desenvolvimento uma sensibilidade no tratamento de todos os elementos, e a música não deixou de ser um desses aspectos trabalhados. O jogo se preocupa em mexer com nossa memória, nos fazer lembrar de coisas, logo nada com mais impacto do que a música para nos levar a essa nostalgia.

Riot Grrrl
O jogo se passa no ano de 1995 no estado de Oregon nos Estados Unidos, e retrata a cena musical da época, na verdade um nicho que nascia nesse período e nesse local, o movimento musical que une punk rock e feminismo chamado de Riot Grrrl, bandas independentes compostas inteiramente por garotas engajadas na luta pela igualdade de gêneros e fim da discriminação, algumas vezes de forma irônica, algumas vezes com discurso embasado e agressivo, abordagem essa que sempre foi comum ao movimento punk, principalmente nos anos 80, e que além dessa característica também traz do punk o conceito DIY (faça você mesmo) de se você quer ter voz e se expressar nada melhor do que a música, portanto vamos pegar os instrumentos e tocar!

O jogo retrata personagens que se identificam e passam a fazer parte desse movimento cultural, que não só gostam das músicas, mas como também no caso de Lonnie entra para uma das bandas.

Bratmobile
Seu papel é importante no jogo, o álbum Potty Mouth é responsável pela união das personagens Sam e Lonnie, pois é um presente que Lonnie dá dizendo que ela precisa ouvir o álbum, e Sam logo se apaixona por aquilo que ela não conhecia e tanto se identifica, existe duas músicas delas presentes no jogo, Cool Schmool e Some Special.

Bratmobile k7 Gone Home

Bratmobile é uma banda de Washington e uma das percursoras do Riot Grrrl, e o seu primeiro álbum Potty Mouth de 1993, lançado pelo selo Kill Rock Stars, é um dos grandes expoentes do que é o movimento. Algo a se relatar é que elas começaram tocando com a banda Bikini Kill, também de Washington e considerada pioneira do movimento. As integrantes não tiveram formação nenhuma musical, e pouco se importaram com isso. Gravações precárias, arranjos simples com riffs e linhas de bateria cruas, distorções acidentalmente sujas e péssima captação de voz, era tudo isso que dava ao Bratmobile uma identidade autêntica, com algo feito por paixão, e uma necessidade de se expressar colocada em primeiro lugar.

Heaven to Betsy
Igualmente importante no jogo como Bratmobile, ela tem outros fatores incomum, também é Washington e lançou seu primeiro álbum pelo selo Kill Rock Stars, primeiro e único, que aparece no jogo em forma de fita cassete, o Calculated, que tem três músicas em Gone Home, Nothing Can Stop Me, Terrorist e Complicated. A banda foi a primeira da guitarrista e vocalista Colin Tucker, que ao término dela em 1994, formou outra banda de grande nome do Riot Grrrl que foi o Sleater-Kinney.

Heaven to Betsy - Terrorist k7 Gone Home

Girlscout / The Youngins
Para interpretar a banda fictícia da personagem Lonnie, a Girlscout, a equipe de produção teve a sorte de encontrar em um evento em Portland no Grrrl Front Music Festival de 2013 a banda The Youngins, que segundo o diretor Steve Gaynor “o som delas pode facilmente soar como se tivesse emergido do ano de 1995.” Curiosamente a banda acabou antes mesmo do jogo ser lançado. Ela participa no jogo com duas músicas Role Model e Self.

Girlscout - Role Model k7 - Gone Home

Adrian Rollini and his Tap Room Gang – Got a Need for You
Fugindo da temática Riot Grrrl, em um dos cômodos da casa presente no jogo, pode ser encontrado um vinil em uma vitrola que pertence ao pai de Sam e Katie que toca uma inusitada música de jazz, não vou entrar no mérito do por que aquela música aparece ali, até por que acredito que assim como vários objetos no jogo só servem de ambientação para te transportar para algum lugar em sua memória, essa música parece ser um desses casos.

Gone Home - Adrian Rollini

Adrian Rollini foi um jazzista branco nova-iorquino, que fez sucesso principalmente na década de 30, sabendo tocar vários instrumentos e fazendo diversas parcerias, assim sem ser muito específico e não me prolongando muito, segue a baixo a música dele presente no jogo.

Chris Remo e a trilha do diário da Sam
Não é só de músicas licenciadas que se trata a trilha de Gone Home, Chris Remo, o jornalista, game designer, escritor e compositor, ficou a cargo de criar a belíssima trilha de fundo das narrações feitas pela atriz Sarah Grayson. Belíssima sim, pois o trabalho que Chris fez junto ao texto e a narração tem um grande mérito de conduzir da melhor forma a nossa emoção, como pede a narrativa do jogo. Confira um trecho disposto por Steve Gaynor:

Conclusão
Até onde me recordo nunca antes vi um jogo dar esse valor para a música, pois ela não é só usada como trilha, mas como um elemento importante na narrativa, pois usa do seu contexto cultural e histórico para enriquecer a trama, indo além do jogo em si. Esse é um grande mérito da concepção de Gone Home.

Se achou interessante e ainda não jogou, não perca mais tempo!