Eragon – Livro 1 – Ciclo da Herança

Por | 27/03/2014 | Sem Comentários

Primeiro do que viria a ser a série denominada Ciclo da Herança que contém quatro livros, Eragon além de nomear o personagem principal da história, também é uma palavra bastante similar a que denomina dragão em inglês (dragon), e ainda representa o fim (e conseqüentemente também o começo) de uma era: Era gon(e).

Pretensioso? Nem tanto se levarmos em consideração que Christopher Paolini iniciou o rascunho da obra aos quatorze anos de idade, para depois publicá-lo pela editora de seus pais a Paolini International no ano seguinte. Educado em casa, assim como sua irmã mais nova Angela (que possui um personagem em sua homenagem dentro da saga), Christopher teve contato com diversos escritores renomados da ficção até chegar à conclusão de que sempre faltava algo que as completasse. Foi então que decidiu ele mesmo criar sua história ideal.

Eragon é um garoto simples e órfão, sem nada de especial exatamente como os heróis mais conhecidos neste século e no último pelo público – Bruce Wayne, Peter Parker, Frodo, Harry Potter, etc. O próprio Paolini diz ter sido intencional se tratar de uma jornada dicotômica, além das óbvias influências de acordo com suas preferências por contos e lendas medievais, com espadas e lutas épicas.

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o autor com o terceiro livro da série

O garoto então passou seus quinze primeiros anos (mesma idade do autor na época) vivendo em uma fazenda dentro da aldeia de Carvahall, uma dentre várias desta terra chamada Alagaësia (como Westeros, Terra Média, etc). Seu único “talento” é a habilidade de caçar em uma cadeia de montanhas que muitos dizem ser amaldiçoada, chamada de A Espinha. É neste local que repentinamente uma pedra mágica aparece para Eragon.

Quando este traz a pedra para a casa de seu tio Garrow onde vive juntamente do primo Roran, podemos testemunhar a vida simples destes personagens em seu âmbito natural antes do chamado para a aventura tocar suas vidas. Com Roran acontece a mudança para uma cidadezinha próxima onde pretende aprender um ofício para se casar, já para Eragon agora sozinho em casa com o tio, é sua pedra mágica. Só que não se trata de uma pedra e sim um ovo de onde eclode o dragão Saphira, nossa heroína.

O desenvolvimento de Saphira e sua ligação para com Eragon são a marca deste livro já que a intenção de Paolini era transformar o dragão na amiga ideal, e ela realmente torna-se cativante ao leitor que aprende tanto a admirar sua humanidade latente por ter uma ligação incomum com um humano, como seu ponto de vista selvagem quanto a algumas vivências que pontuam de forma bastante divertida estas passagens.

Toda esta situação pode ser descrita naquela realidade como algo próximo ao milagre, já que os Cavaleiros de Dragão foram todos exterminados pelos Renegados há cem anos. Estes que foram liderados pelo rei tirano Galbatorix reduziram ao pó toda uma antiga civilização, de forma semelhante a que o Imperador Darth Sidious fez com os Cavaleiros Jedi em Guerra nas Estrelas. No momento de eclosão de Saphira, Galbatorix é ainda rei e Shruikan, seu dragão, é o último de toda a Alagaësia.

O ovo obviamente está sendo procurado e logo estranhas criaturas chamadas Ra´zac aparecem em Carvahall em seu rastro. Nesta busca os monstros assassinam Garrow e Eragon foge juntamente do contador de histórias do lugar, um homem de certa idade chamado Brom. A partir daí o protagonista irá aprender magia e luta além de desbravar o continente inventado por Paolini, nos levando junto em suas aventuras.

Como introdução de uma saga Eragon cumpre bem seu papel, envolvendo-nos com os personagens tanto quanto com o universo criado, ainda que por ter toda a obrigação de situar o leitor a inventividade do autor obviamente fica um pouco contida para que o universo não se perca dentro de inúmeras ideias. Assim sendo, alguns detalhes podem parecer à primeira vista muito similares a outras histórias, porém levando em consideração a estrutura do monomito em que todas são construídas há de se entender a dificuldade que comparações como estas podem trazer já que serão sempre similares em alguns detalhes, o importante claramente são as diferenças.

Este é um livro de aventura, sendo assim existe sempre alguma ação acontecendo com o objetivo de nos entreter e em alguns deliciosos momentos encantar. A magia está em Eragon de forma bastante delicada e bem construída, já que a visão e paixão de Paolini por seu universo ficam bastante evidentes desde o princípio.

Esta visão particular que emana da obsessão do autor estão em vários detalhes, a exemplo das descrições dos cenários de toda a terra da Alagaësia, com evidência nas arquiteturas das grandes cidades tanto quanto em sua tão adorada flora (o autor cresceu em Montana, onde se inspirou). Do mesmo modo existe excelência de detalhes relacionados ao folclore do mundo fictício (idioma, história, etc.) que demonstram não só suas influências quanto perfeccionismo.

Já os diálogos e até relacionamentos entre personagens não são tão bem construídos – Saphira e Eragon contam como uma pessoa só, já que possuem ligação mental. Estas não têm aquela naturalidade que talvez fosse necessária para haver um contrabalanço entre o real e o irreal, principalmente os diálogos que ficaram muito “fictícios”. Felizmente, mesmo este deslize melhora nos próximos livros, já que provavelmente o próprio autor antes tão novo e sem contato com pessoas fora de seu círculo familiar, teve de experienciar novas situações para podê-las descrever melhor posteriormente.

Eu honestamente me diverti bastante lendo Eragon, não se trata de uma trama tão intrincada quanto eu gostaria, mas reconheço como um trabalho original. Gosto mais dos livros posteriores ainda que o final não tenha sido de todo meu agrado… Mas isso é para outra vez. Eragon e o Ciclo da Herança merecem serem lidos e apreciados – assim como uma adaptação de cinema digna, por que aquela, por favor!

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Edição Nacional: Rocco

Ano: 2005

Páginas: 480