Entrevista com Daphne (Daph Bludger) sobre Roller Derby

Por | 16/10/2014 | Sem Comentários

Faltando pouco menos de um mês para o 3° Brasileirão de Roller Derby, o Teletílica entrevistou a presidente da liga paulistana de Roller Derby Ladies of HellTown, Daphne. Seu derby name é Daph Bludger, ela treina há dois anos e meio e é double threat (jammer e blocker) no time principal da liga.

1- O que te fez escolher o roller derby?

Eu já tinha visto o filme Whip It (no Brasil ele se chama Garota Fantástica) quando ainda morava em Brasília e tinha achado incrível, mas nem imaginei que isso pudesse existir no Brasil e nem procurei saber.

Um belo dia anos depois, já morando em SP, vi uma amiga dar check-in no treino das Ladies of Hell Town e falar que estava entrando no rolê do Roller Derby. Mandei um whats app pra ela pedindo pra ir a um treino e pronto! Fui pela primeira vez, achei todas elas fodonas e saí de lá direto pra casa onde encomendei os patins assim que cheguei.

2- Conte um pouco da sua história com a liga atual, como foi o começo e como é hoje?

Quando cheguei nas Ladies of Hell Town as meninas foram bem receptivas, cada uma a sua maneira. Numa liga com tanta gente, quem chega tem que estar preparado para encontrar todo tipo de pessoa e lidar com as mais diversas personalidades. Tem aquelas meninas mais fofas que chegam pra se apresentar e te conhecer melhor na hora. E tem aquelas mais fechadas que vão esperar você dar o primeiro passo pra trocarem uma ideia. Mas todas completamente dispostas a fazer adorar o Roller Derby, e se for preciso te pegar pela mão e ensinar tudo.

Não foi preciso que me pegassem pela mão, mas apesar de já saber patinar, precisei reaprender muita, muita coisa e aprender Roller Derby do zero. Foi bem legal o começo, mas a liga não tinha a estrutura que tem hoje, treinávamos em uma quadra que não chegava nem perto do tamanho adequado, o chão não era dos melhores e ainda não sabíamos muito bem o que estávamos fazendo. Mas eu tive sorte, as meninas que chegaram na liga antes de mim, tiveram que treinar em lugares ainda piores e tinham ainda menos noção do esporte. Quando eu cheguei, elas já tinham participado de dois bootcamps com jogadoras experientes da gringa e algumas tinham jogado a primeira Copa do Mundo de Roller Derby e passam todo esse aprendizado pra gente.

Hoje é muito mais sério o rolê. Digo isso não no sentido de ser chato e sisudo, mas porque treinamos em quadras melhores, treinamos muito mais e com muito mais segurança, fizemos outros bootcamps com jogadoras muito boas do exterior, participamos de campeonatos internacionais, de um nacional, temos muito mais acesso a jogos internacionais e treinamentos. Tudo isso nos dá mais experiência e segurança. Agora nas Ladies organizamos jogos periodicamente, temos um time principal e um time B, organizamos muitos eventos e produzimos bastante conteúdo a respeito do esporte.

As únicas coisas que não mudaram em nada desde o começo é nosso espírito de “Faça você mesmo” para fazer a liga crescer e o Roller Derby acontecer no Brasil. Nosso companheirismo e vontade de aprender, aprender e aprender.

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Ladies of Hell Town

3- Pra quem você recomenda a prática desse esporte?

Para quem quiser! O Roller Derby é o esporte mais inclusivo que eu conheço. Você pode ser mulher, homem, gorda, magra, alta, baixa… Aceitamos qualquer tipo físico. Se a pessoa quer se comprometer e levar o esporte a sério, temos a modalidade competitiva dentro da liga onde você pode treinar para ser jogador(a) ou juiz(a). Para quem só quer patinar e treinar/jogar sem compromisso, temos a modalidade recreativa. E para quem quer fazer parte da liga, mas não quer se aventurar nos patins, temos sempre lugares para os NSOs (que são auxiliares dos árbitros e não usam patins), temos a comissão técnica que sempre precisa de ajuda, além de mil vagas para voluntários como fotógrafos, cinegrafistas, os próprios NSOs podem ser voluntários, além que sempre precisamos de gente para ajudar nos nossos eventos. Sempre tem o que fazer lá na liga!

4- Você vê alguma semelhança ou diferenças entre as ligas brasileiras e as ligas latino-americanas?

Além do idioma, muita coisa! hahahahaha Então, na verdade estamos todas correndo atrás de fazer o derby acontecer em nossos países, a diferença é que em alguns países latino-americanos, a patinação faz parte da cultura deles e isso faz com que muito mais gente acabe se interessando pelo esporte e já chegue um passo na nossa frente que é saber patinar. Mas elas também recebem pessoas que nunca subiram em um patins, também tem dificuldades em arrumar lugar para treinar, realizar os jogos e organizar campeonatos.

Percebo é que o tamanho do nosso país dificulta muito a nossa vida. Enquanto em países menores as viagens de uma cidade/estado pra outra são mais curtas e mais baratas, aqui fica quase impossível nos reunirmos para jogar com frequência porque é muito caro e longe. Além disso, isso dificulta também a passagem de conhecimento mais prático e temos poucas ligas com times inteiros em nível de jogo. Fora que em uma cidade como por exemplo São Paulo, é quase impossível treinar todos os dias igual algumas ligas de fora treinam. Pela falta de lugar e de tempo também… Mas vamos fazendo o possível dentro das nossas limitações.

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5- Algumas pessoas ficam confusas quando escutam falar como Roller Derby funciona, você acha que esse é um empecilho para a expansão do esporte?

Acho que no início sim, mas basta ver um jogo que é certeza de se apaixonar. Para entender de verdade, tem que ter muita vontade, porque é um jogo complexo, com muitas regras. Mas em um jogo se entende o básico e para se apaixonar e entender um jogo, o básico basta.

6- O Vagine Regime é um dos belos frutos do Roller Derby, você acredita que o esporte pode funcionar como uma ferramenta para a igualdade quanto a diversidade sexual?

Já funciona! É um esporte que aceita transsexuais em times femininos e masculinos, que luta contra o preconceito sexual (e de qualquer outro tipo) e por isso é totalmente inclusivo. Que tem um movimento político como o Vagine Regime e apoia muitos outros. As ligas de Roller Derby tem a tradição de serem uma parte ativa de suas comunidades locais, organizando eventos beneficentes e apoiando as mais diversas causas igualitárias dentro dessas comunidades.

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7- Você acredita que o Roller Derby vai um dia ser tão popular como outros esportes? Até uma olimpíadas quem sabe?

Sobre esse ser popular como outros esportes, não vejo motivo para não ser. No Brasil vai ser uma luta longa e árdua, mas estamos dispostas. Mas em países como os EUA e o Canadá, já é um esporte popular e cheio de fãs dedicados.

Sobre as olimpíadas, essa é uma discussão que já tem um tempinho e é sempre muito polêmica, pois ninguém sabe se o Roller Derby em nível olímpico aceitaria todo tipo físico ou transexuais por exemplo. Eu acho que tudo é possível. Entrar nas olimpíadas seria muito bom para a popularização do esporte no mundo todo, mas só se isso não significasse o fim desse fator inclusivo que é o mais bonito e incrível no roller derby.

8- Como funciona a escolha das jogadoras da seleção brasileira?

Todo ano acontece um tryout no Rio ou em SP. A comissão técnica ou as próprias jogadoras que já estão na seleção e cuidam da parte de treinamento fazem a avaliação.

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9- O que estão esperando do Mundial que acontece em dezembro no Texas?

Pelo que falo com as meninas da seleção, elas que foram na primeira Copa esperam superar sua participação em 2011, onde a maioria delas nunca nem tinham jogado um jogo na vida. Tanto elas quantos as que não foram no outro torneio esperam mostrar que o Roller Derby brasileiro evoluiu, jogar bem e fazer uma bela participação.

Como torcedora do Team Brasil e sendo uma pessoa que joga com muitas delas no meu time e contra elas sempre que possível, acredito que é um bom time, que elas estão evoluindo muito e que vão fazer bonito e nos orgulhar muito lá no Texas. Tenho certeza que vou vê-las ganhando uns jogos e nos fazendo chorar por aqui hahahahha.

10- Em 2013 o Gray City Rebels foi o 1° time campeão brasileiro no 2° Brasileirão. Não teve campeão na primeira edição ?

Não. Como no Brasil, até o ano passado tínhamos apenas três times completos e com nível de jogo (esse ano devemos ter uns 4 ou 5 se tivermos tudo isso), a liga anfitriã do 1º Brasileirão, as Sugar Loathe Derby Girls, do Rio de Janeiro decidiram fazer um grande encontro entre as ligas, para nos conhecermos e aprendermos mais das regras do esporte em um ref clinic com o Sugar Daddy, um dos árbitros mais graduados da WFTDA. Tivemos sim jogos amistosos entre os três times. Ladies of HellTown vs. Gray City Rebels (primeira vez que os dois times paulistas se enfrentaram e nesse as Ladies ganharam) e Gray City Rebels vs. Sugar Loathe (aqui as rebels venceram). Mas assim como no primeiro jogo de Roller Derby do Brasil entre Sugars e Ladies, uns três meses antes do 1º Brasileirão, costumamos dizer que quem ganhou mesmo foi o esporte, por que até então nem jogos nos conseguíamos fazer. Em 2013, as Rebels foram as anfitriãs e decidiram fazer um campeonato no último dia. Como ainda não tínhamos mais times, tivemos um quarto time formado por meninas de várias outras ligas que tinham a desvantagem de nunca terem treinado juntas antes, mas mesmo assim toparam e se divertiram muito. Ainda acho que não temos condições de fazer um campeonato de verdade, realmente competitivo, mas acho que foi importante mesmo assim para o crescimento do derby nacional. Espero um dia que possamos ter campeonatos maiores, com muitos times e todos em um nível parecido de jogo. Só assim vamos crescer de verdade, aprender mais, jogar melhor, etc. Acho que ainda está meio longe de acontecer, pelo menos só entre times brasileiros.

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Gray City Rebels

11- Deixe algum conselho pra quem pensa em começar à praticar.

Comece! hahahahahha Vem assistir um treino das Ladies of HellTown e começar a treinar com a gente. Se você nunca patinou, a gente te ensina. Se você não manja nada de Roller Derby, a gente te ensina. Ajudamos a comprar os equipamentos, explicamos quais são os melhores e damos toda a assistência necessária. Tenho certeza que vai fazer bem para a auto-estima e você vai descobrir que pode fazer o que quiser.

Manda um e-mail para o contato@ladiesifhelltown.com.br ou é só chegar, nós treinamos quatro vezes por semana e temos treinos abertos nestes horários e locais:

Sexta-feira, das 20h30 às 22h30 no Círculo Macabi (Av. Angélica, 634. Próximo a estação de metrô Marechal Deodoro – linha vermelha)
Domingo
, das 16h às 18h na Atlética da Unifesp (Rua Pedro de Toledo, 844, Próximo a estação de metrô Santa Cruz – linha azul).

VEM GENTE!

12- O que você gostaria de falar para o dono da Traxart? 

Nada. Nós até indicamos os equipamentos deles para quem tá começando e quer gastar menos (mesmo assim é muito) e poder dividir. Não é o equipamento apropriado para o roller derby, mas para o comecinho dá. Claro que se um dia eles quiserem conversar com a gente para uma consultoria/parceria para criar um patins próprio para o Roller Derby de verdade, vamos amar e seria muito importante para o nosso esporte. Fica aí a dica.

 13- Porque não tem bola? Zuera

Porque seria fácil demais, né… hahahahahahha

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Segue abaixo alguns links para quem quiser saber um pouco mais sobre esse esporte, e para quem despertou curiosidade ou interesse em fazer parte, as Ladies estão em fase de recrutamento.

Você não conhece roller derby?

3° Brasileirão de Roller Derby

Ladies of  Hell Town