Rocha

Entrevista com o rapper Rocha

Por | 27/01/2014 | 6 Comentários

Em nossa primeira entrevista aqui no Teletílica, tive a oportunidade de conversar com o rapper Rocha que recentemente lançou seu álbum solo “Pra 5ª categoria também ser 5 estrelas”, disponível para download em seu site. Falamos um pouco de suas músicas, sobre o cenário do rap em São Paulo, e entramos em outros assuntos como algumas formas de discriminação e também a projeção atual do funk. Confira a seguir:

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Você disponibilizou seu álbum “Pra 5ª categoria também ser 5 estrelas” completo para download. Por que escolheu por esse tipo de distribuição? Tem planos para lançar em outros formatos?

Rocha: Na realidade a meta principal é o físico, inclusive, dia 15 de fevereiro vai rolar uma festa oficial de lançamento lá na galeria Olido. Eu sei da necessidade de colocar o trabalho na internet e para democratizar o acesso eu optei em colocar para download para que as pessoas conheçam o trampo sem ter que gastar um real e futuramente conhecendo e havendo interesse, comprarem o cd. Até porque a meta principal é as pessoas ouvirem a música.

Qual a ideia do título do álbum? Existe um conceito presente em todas as músicas?

Rocha: O título do cd é uma visão sobre as manifestações comportamentais, artísticas, negras e populares do nosso povo, pois sabemos que tudo que vem do lado de cá é subvalorizado ou tratado com paternalismo. No passado, a capoeira e o samba eram criminalizados. Os irmãos eram presos por andar com um pandeiro ou berimbal na rua e hoje, tanto o samba como a capoeira, são considerados patrimônios nacionais, por mais que o povo que originou essas expressões vivam mazelas até hoje. Tudo que o povo cria, a principio, é considerado de 5ª categoria! As músicas que falavam de traição de maneira popular eram consideradas “bregas”, a religião que invocava divindades africanas e indígenas eram e são, até hoje, consideradas “feitiçaria”, as escolas de samba que prestavam diversos serviços a comunidade eram consideradas reduto de bandido. Essas expressões hoje movimentam massas e, consequentemente, dinheiro! O dinheiro tem o poder de transformar a sub-arte em arte Cult (risos).

O underground existe e movimenta mó moeda! Quando falo de underground não me refiro somente ao rap, me refiro ao funk, ao forró e entre outras diversas músicas “regionais” que fazem trabalhos independentes, sem divulgação das grandes mídias. Esse pessoal consegue lotar shows, fazer grandes videoclipes, bancam programas de radio e web e vivem de sua própria arte. Tem evento de forró ou funk, por exemplo, que lota muito mais que um show de pop-rock de alguma banda que toca na radio Nova Brasil! Tem batalha de rimas, no meio da rua, que não tem nem sequer um microfone, competindo público com casas de shows, assim como tem saraus nas favelas tendo mais frequentadores e apoio de formadores de opinião de jornais e blogs do que saraus organizados por letrados de Pinheiros ou Vila Madalena, rs. Ou seja, a cena interna entre pretos, favelados, índios e nordestinos funciona muito bem e tem muita expressão. Por isso digo que a “5ª categoria também é 5 estrelas”! rs.

Rocha - Pra quinta categoria ser cinco estrelas

Capa do álbum com foto de Thiago Mann Angst
e arte de Carol Araujo.

O álbum está muito bem feito, tanto em produção (de Tico Pro. do selo South2East Recordz, Rincon Sapiência, Nefasto e Hadji Suínara) como em suas composições. Do que conheço de você, assim como de seus parceiros do Q.I. Alforria você preza muito a qualidade das músicas. Você se considera perfeccionista?

Rocha:
Meu parça, me considero um cara muito chato! Já teve momentos que eu fiz o Tico trabalhar umas 5 horas em uma produção e quando ele acabou o trampo eu falei que não era aquilo! (risos). Teve momentos de eu ir na casa do Rincon, ele fazer uns 3 beats pra eu poder levar um. A minha sorte é que trabalho com uns manos empenhados e pacientes, senão tava fudido! (risos)

Os membros do Q.I. Alforria (RG, Cafuris, Dj Dick) também estão trabalhando em projetos solo, vocês tem planos de lançar novas músicas com o Q.I.?

Rocha: Todos têm seus corres individuais relacionados à arte e música, mas não necessariamente um trabalho fonográfico. O DJ Dick organiza bailes com seus equipamentos de som, o Cafuris circula bastante no cenário literário periférico, os Saraus de quebrada de diversos lugares de São Paulo. Inclusive, eu, o Cafuris, o DJ Dick e mais uma rapa organiza um sarau que leva o nome de Saravá. Já o  RG está pra lançar uma EP em parceria com o Green Alien, e também trabalha no seu disco solo (que tá foda, por sinal). Já o Q.I Alforria tem muita música pra soltar e temos um disco quase pronto.

Pra você quais as dificuldades de se lançar um álbum independente de rap?

Rocha: É muita treta conseguir locais pra divulgar seu trabalho que não sejam o Facebook ou o Twiiter. Às vezes você pode lançar um disco fodástico, mas as ferramentas de divulgação são muito limitadas.Tem site específico de rap que só divulga trabalho de quem já tem muita divulgação e fama, e pros grupos de menos expressão, cobram dinheiro!

Existem pouquíssimas casas de shows que trabalham com rap, e as que existem querem que os artistas cantem quase de graça, ou por uma garrafa de água e uma maçã. Os contratantes são desrespeitosos! Tem casa que trabalha com rap a mais de década e mesmo assim mantém os equipamentos de sons zuados, tão zuados que nem o público e o MC se escutam. Ar condicionado desligado e os caralho a quatro!

Hoje o rap tem ganhado grande exposição nas mídias com artistas como Criolo e Emicida, você acredita que isto está contribuindo para o fim da marginalização do rap?

Rocha: Esta contribuindo sim e acho isso ótimo! Tem que ter algum dos nossos lá pra mostrar outra versão dos fatos, inclusive dialogar com o vizinho Zé povinho, que só bota fé no que aparece na TV ou na igreja. Felizmente os maiores expoentes do rap, na mídia, ainda são os pretos que tem algum comprometimento com a cultura de favela. Apesar disso, eu noto que existe uma tendência da classe media querendo se expropriar da nossa arte, comprar as nossas lideranças e pintar de branco o quadro negro (mais uma vez).

O funk carioca, agora também paulistano, é um outro gênero musical da periferia que tem ganhado exposição na mídia. Você vê alguma relação com o rap? Por que você acha que tem crescido tanto sua popularidade ultimamente?

Rocha: Eu vejo muita relação entre o funk e o rap sim. Ambos são músicas de favela e de preto, são dois irmãos com comportamentos e ideologias diferentes, porém são da mesma família! O rap é o som do gueto norte-americano, e o funk é o som do gueto brasileiro, é a música rimada em cima de batida eletrônica do Brasil! Se você for ver todos países tem o seu “pancadão”, que é mais ou menos as mesmas ideias do funk. Por exemplo, o ragga é o “pancadão” da Jamaica, fala de crime, dinheiro e putaria, assim como o reggae ton é o “pancadão” de Porto Rico e fala de dinheiro, crime e sexo. O rap estadunidense é o espelho desse tipo de tema para todos estilos musicais periféricos do planeta, pois canta a ostentação, a putaria e o crime, e mesmo assim rende milhões de dólares no mundo! Com o Brasil não ia ser diferente! Esse bagulho de cantar o crime, grana e o sexo, é inerente a cultura do gueto de praticamente todos os países ocidentais, pelo fato do capitalismo impor um padrão de vida e de consumo e o gueto absorver esses padrões da sua maneira, pois como versou o Mano Brown “Vocês dão taça de veneno e quer suflair?” rs

Pra falar a verdade eu não acho que o funk tem ganhado exposição da mídia agora, eu acho que ele sempre teve! É que em alguns  momentos ele sumia da mídia e depois aparecia! Pra mim o detalhe maior do destaque dos MC’s de funk na mídia é que eles estão se preocupando mais com a qualidade fonográfica das músicas. Antigamente você ouvia um som de funk, dava a impressão que o cara gravou no banheiro de casa com qualquer batida da internet! Hoje os caras produzem suas batidas com mais variações de timbres, utilizam samples ou fazem melodias (coisa que antes, só os MC’s de grandes gravadoras faziam), Outro fator importante, é que os funkeiros que cantavam sons explícitos de sexo e violência, migraram pro “ostentação”, conseguindo assim invadir mais os meios de comunicação.

Recentemente algumas manifestantes protestaram em um show do Emicida acusando ele de ser machista, por conta da letra da música “Trepadeira”. Você não se preocupa que interpretem da mesma forma a letra da sua música “Paty”, ou considerem sexistas as músicas “Sexo é Foda” ou “Pique Palmares”? Inclusive o diálogo entre as músicas “Redemoinho de Março” e “Sexo é Foda”, tem um conteúdo feminista, por que escolheu inserí-lo, tem alguma relação?

Rocha: Da mesma maneira que o branco falando sobre o preto soa ofensivo, um homem falando sobre a mulher também soa. Tenho consciência disso! Sei que nessas questões de opressões históricas, principalmente de gênero e racial, existe muito rancor, e por mais que o ódio seja algo negativo, só pelo fato do oprimido acordar do sono da comodidade, já é um avanço! Mesmo que reproduza um ódio cego e ignorante!

Falar que a Paty é um som machista é treta, porque não há julgamento moral pelo número de caras que ela transou, não há julgamento pela roupa que ela usa, não falo de agressão física e ela não é colocada numa posição subalterna ao homem. Eu falo sobre seu comportamento burguês!

Sobre a “Sexo é Foda”, é uma música de sexo narrando uma situação normal entre casais saudáveis. Não é dito nada fora do comum, nada que não aconteça entre quatro paredes na vida da maioria dos casais. E tanto o homem quanto a mulher goza nessa música. O detalhe talvez seja, que a música é por uma perspectiva masculina, sobre o tesão de um homem numa mina…

Já a “Pique Palmares”, é um som que fala de uma mina preta que é maloqueira, que chapa em militância negra e feminista. É o perfil de várias irmãs que tão no rolê de samba e Black, que não gosta de miscigenação nos relacionamentos afetivos, que lêem pra caralho e são mente aberta. Na verdade eu quis fazer um som sobre relacionamento, homenageando as pretas cabeça pensante do rolê!

Como não estamos acostumados ouvir musicas de rap nacional sobre sexo, sei que causaria algumas más impressões, pois infelizmente o rap e a militância é muito cheio de pudor ainda. Por isso resolvi colocar um diálogo em que a mina dá um discurso feminista numa situação corriqueira. Sendo que eu não fiz nenhum som falando sobre as contradições do universo feminino, nada mais justo do que uma mulher falar!

Eu particularmente gostei bastante da letra de “Sexo é Foda”, e como a poesia da música acabou sendo mais bela e profunda do que algumas love songs que inclusive você cita no começo. Elas normalmente parecem ser só rimas vazias.

Rocha: Eu chapo em música romântica, até uns pagodinho mela cueca eu curto! (risos) Nunca tive problema nenhum com love song no rap, o que eu não tenho é paciência!

Poucos caras no rap conseguem fazer som adulto de relacionamento, como o Rincon Sapiência na “Caso Sério” ou como o Marcelo Gugu em “Cão”! A maioria fala uns baratos tão doce que é necessário insulina quando a música acaba!  Então eu prefiro ouvir o Cartola ou Djvan.

Suas letras são bem ricas e sua métrica é bem característica. Que artistas que influenciaram o seu estilo?

Rocha: Pra mim os melhores compositores do Brasil, são o Mano Brown e o Chico Buarque e me influenciam muito! O Eduardo ex-integrante do Facção Central me chapa no seus versos agressivos, e o Jorge Ben Jor me inspira nesse lance de falar de ancestralidade com tanta naturalidade.

Lembro que você frequentava muito a Galeria Olido, qual é sua história com batalhas de MC’s? Você participa ou só assiste?

Rocha: Eu frequentei muito a Olido. Era a nova  São Bento (reduto do hip hop entre o fim da década de 80 e o meio da década de 90), só que era pilotada pelo Kamau e a banda Central Acústica! Vi vários MC’s fodas saírem de lá, como meu irmão Rincon, o Emicida, Projota, Rashid, Nocivo. Na verdade boa parte dos caras que estão em evidência hoje vieram da  Galeria Olido! Mas eu nunca frequentei muitas batalhas de MC’s não. Eu sofria uma discriminação na época, porque eu gostava de Facção Central e os cara gostavam de Quinto Andar! Os caras diziam que eu gostava de rap que só falava de tiro, e eu dizia que eles só gostavam de rap de boy!(hahahaha) Era uma época engraçada na realidade, todo mundo tentando se auto afirmar… era a 105FM saturando o rap brasileiro, enquanto a internet gerava novos artistas pra um novo público. O “rap favela”  causando desinteresse na periferia, o funk começando a bombar em São Paulo e os boy chegando lindo nos eventos de rap “underground”! Foi uma fase de transição louca pro rap, e até pra música brasileira, pois tem MC dá época da Olido que colocou o rap em outro nível na mídia.

Em relação a se participo de batalha de rima: de forma alguma! Sou ruim pra caralho no freestyle! hahaha

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Escute todas as músicas do seu álbum no link abaixo:

  • Tico Pro

    Ótimas perguntas, lokas respostas, resumindo… Uma das melhores entrevistas que já li!
    Parabéns ao Bruno Araujo e ao site Teletílica e ao meu parça Rocha por esse espetáculo literário.
    OnE LoVe!!!

  • Du_Bod

    Concordo! Tico Pro… Já era fã desse mano desde 2007/2008 (se não me engano), quando noiz dividia umas gargalhadas entre uma poesia e outra no Sarau do rap lá da Ação Educativa. Agora com esse trampo recém lançado, o céu vai ficar pequeno pa esse meninu… " Se o céu é o limite, Ele vai viar é di Apollo" (Risos).

  • " Gente que acredito gosto e admiro ! "

  • Esse muleke é foda nas idéias, sempre foi!!! Aqui em casa temos uma fita cassete de um som de quando o Rocha e companhia limitada do Cedeca gravaram com uns 15 anos de idade (fazzz teeeeeeempooooo kkkk) e eles ja demonstravam dominio e tecnica na arte de rimar e nas ideologias.
    Pra mim, foi um prazer trabalhar com esse menino, além da nossa amizade, concretizar algo com quem acompanhamos o dia dia e dividimos algumas paradas, é uma honra!
    Album concretizado, respeito e reconhecimento mais que merecido!!!!

  • Leo

    Poderia passar o site do Rocha, para eu ouvir as musicas?