Entrevista Akira Sanoki

Por | 25/03/2014 | Sem Comentários

Nesta entrevista tivemos oportunidade de conversar com Akira Sanoki (ilustrador, colorista e quadrinista) sobre a revista Subversos, incentivo do governo a obras nacionais, seus trabalhos e principalmente quadrinhos independentes.

 

1- Primeiramente gostaria que você nos transpusesse a época do surgimento da ideia/inspiração da Subversos. Quem eram seus “comparsas” da época? O que vocês tinham como meta e qual eram seus pensamentos, sonhos ou produções até aquele momento?

A Subversos surgiu na faculdade, quando estudávamos Artes Plásticas na UNESP em 2004, no bairro do Ipiranga aqui na cidade de São Paulo. Uma das disciplinas optativas era História em Quadrinhos e nesta sala que surgiu a ideia e o primeiro zine da Subversos. Pelas fotos dá pra ver que era bem simples mesmo, eram as páginas coladas para depois tirar xerox. Esse primeiro projeto contava com trabalhos da maior parte das pessoas que participavam da aula e a ideia era ser uma revista livre e criativa, alguns faziam experimentações da linguagem, outros buscavam novas estruturas narrativas, alguns seguiam os clássicos, etc. Essa mistura era bem divertida e bastante gente produzindo junto dá uma grande empolgada. O zine era uma forma de nos estimular a produzir.

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Capa do primeiro zine entitulado Subversos

 

2- Como a idea se tornou realidade? Como e quem colaborou para que esta resistisse e se firmasse (incluindo aqui encontrar os artistas que estiveram na primeira edição)?

Eu, o Alexandre Manoel e o Igor Shin Moromisato continuamos nos encontrando algumas vezes para pensar como fazer uma revista em quadrinhos e num desses encontros o Alexandre levou o edital do VAI pra gente ver. Escrevemos o projeto juntos e enviamos sem muita preocupação, tanto que foi uma surpresa quando soubemos que fomos escolhidos. Com verba uma das maiores preocupações que tínhamos foi eliminada, que era o dinheiro para impressão, tanto que resolvemos fazer a Subversos gratuita.

 

3- Como foi conquistar apoio do governo para produzir a Subversos? Explique um pouco sobre o procedimento necessário para se conseguir financiamento deste tipo, por favor.

Editais, seja do governo ou de algumas empresas privadas, seguem um esquema parecido, que é mandar um projeto. No caso do VAI era necessário ser um projeto cultural que atuasse para as comunidades da periferia, aproveitamos essa especificação para escolher, entre outras coisas, o tema central da revista: o cotidiano urbano. As diversas histórias poderiam ser feitas da maneira que o artista preferisse, só precisava seguir esse eixo temático, ou seja, uma aventura medieval estilo Senhor dos Anéis podia estar muito boa, mas não iria participar.

Saber escrever um projeto é muito importante e alguns lugares dão cursos, a própria equipe do VAI dá um curso gratuito muito bom, pois ter uma boa ideia é o começo, mas você precisa também saber mostrar como pretende executá-la de maneira plausível e viável. Existe uma estrutura básica de como escrever um projeto direto, completo e fácil de ler, você vai precisar “apenas” completar cada parte com o que você pretende fazer e como irá fazer isso, dentro do que pede ou propõe cada edital. Lógico que existem editais mais difíceis que outros, o ProAc de quadrinhos, por exemplo, é extremamente concorrido com obras de alta qualidade, então, ser escolhido ou não ser não vai determinar se o seu trabalho é bom ou ruim. É bom lembrar que saber fazer um bom projeto não é útil apenas para editais, na verdade na área cultural quase tudo precisa de projeto escrito para ser aprovado, como um quadrinho novo quando é proposto para a editora, uma oficina oferecida para um instituto cultural e por ai vai.

 

4- Foi o primeiro projeto da VAI relacionado a histórias em quadrinhos? O que você tem a relatar a respeito deste relacionamento do ponto de vista do autor, como a diferença no tipo de distribuição?

Eu tenho conhecimento de pelo menos mais dois projetos com quadrinhos que o VAI apoiou, a Menisquência e a Humor em Quadrinhos. O legal é que pudemos conhecer e conversar bastante com o pessoal de cada um desses trabalhos, o Fernando da Humor em Quadrinhos eu mantenho contato até hoje.

Todas as pessoas da equipe do VAI nos ajudaram muito, ter um apoio deste tipo facilita conseguir serviços necessários para a execução do projeto como melhor preço em gráfica, apoio de editora e distribuição, pois no nosso caso além da revista ser gratuita fazia parte do projeto que a Subversos fosse distribuída em todas as bibliotecas públicas da cidade de São Paulo e conseguimos isso de uma maneira muito mais tranqüila do que nós tínhamos planejado.

 

5-  Vocês tiveram liberdade artística dentro do projeto quando este era financiado?

Sim. Como já tínhamos especificado como tudo ia ser então não houve surpresas. A equipe do VAI sabia que algumas histórias seriam mais suaves e outras mais pesadas, afinal, iríamos representar diversos pontos de vista de uma vida dentro da cidade, e no fim eles gostavam bastante do resultado.

 

6- Quem colaborou e como exatamente as edições foram organizadas e produzidas?

Participaram da revista uma média de 80 artistas diferentes ao longo de 6 edições, se não me engano, o número exato eu não lembro agora, mas foi gente pra caramba. O envio de material era pela internet, sendo divulgado em diversos sites e blogs da área. Recebíamos umas 300 páginas de quadrinhos para cada edição, da qual a gente lia tudo e separava as melhores histórias que se encaixavam no tema da revista. Depois eu, o Alexandre e o Shin nos reuníamos para discutir quem ia participar e quem, infelizmente, teria que ficar de fora.

No começo nós três ralávamos bastante para fazer a revista, já a partir da edição 4 a Subversos conseguiu uma parceria com a editora Devir que nos ajudou muito em diversos aspectos técnicos, como diagramação, fechamento de arquivo e gráfica, o que nos aliviou de grandes preocupações e melhorou muito a qualidade gráfica. Além disso, nessa época a Devir também lançou a Subversos nas bancas de jornal do Brasil todo e para venda online em site por um preço bem baixo, o que foi muito legal.

 

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primeiro zine Subversos

 

7- Por que o projeto terminou?

A Subversos tinha uma tiragem de 5 mil exemplares impressos, gratuitos e distribuídas nas bibliotecas e diversos outros pontos culturais de São Paulo, como galerias, livrarias e faculdades, pois nosso objetivo era que novos artistas fossem lançados e, principalmente, lidos. Esses autores eram em grande parte iniciantes, muitas histórias tinham uma pegada experimental ou alternativa o que era ótimo no nosso projeto, mas comercialmente não. Então após o apoio do VAI conseguir patrocínios que bancasse a revista inteira gratuitamente era bem difícil. Algo que pensamos muito, até hoje, é como fazer uma versão da Subversos online, quem sabe ela não volta com outra cara?

 

8- O que você faria de diferente? Reflita por favor, a respeito de publicações colaborativas em histórias em quadrinhos e sua validade para nosso mercado e novos artistas.

Os dois anos produzindo a revista foi um grande aprendizado, cada erro numa edição servia para melhorar a próxima, em vista disso nem penso muito em como poderia ser diferente na época.

Sobre publicações colaborativas eu sou totalmente a favor, quanto mais se produzir quadrinhos, melhor. Geralmente de todo material produzido em alguma área artística apenas 10% é de ótima qualidade. Pegando por exemplo o mercado de quadrinhos do Japão, podemos ver que a produção é enorme, aqueles mangás gigantes contém diversas histórias de artistas diferentes, resumindo, se um país produz cem trabalhos de quadrinhos no ano, uns dez trabalhos serão bons, já se a produção é de mil quadrinhos então uns cem serão bons.

Outra coisa, quando você quer trabalhar com quadrinhos profissionalmente e ganhar dinheiro mesmo, você já precisa ter feito quadrinhos. Você não chega numa editora e fala que gosta de HQ e tem umas ideias boas, você precisa mostrar algo que já fez, por isso a produção independente é o começo da maioria aqui no nosso país. Observando as editoras brasileiras que publicam material de autores nacionais, como a Nemo, a Devir ou a Balão, todos os artistas publicaram de maneira independente primeiro, e esses trabalhos que foram a sua vitrine e portfólio.

 

9- Com quem você ainda mantém contato?

O Alexandre e o Shin são meus grandes amigos, sempre que possível a gente se encontra, o problema é que a distância tem dificultado um pouco, pois o Shin mora na Alemanha há alguns anos. Já os diversos autores que participaram também da Subversos eu encontro várias vezes em lançamentos e eventos de quadrinhos como o FIQ. Como o meio dos quadrinhos é muito pequeno, é comum estar sempre em contato uns com os outros.

 

10- Em geral, por favor, relate sua experiência e o que ela acarretou em sua produção artística.

A Subversos foi a forma de entrar definitivamente na área de histórias em quadrinhos. Aprendi a desenhar HQs e a fazer uma revista inteira, conheci diversos artistas bons, editores e várias pessoas interessantes que me ajudaram a continuar e me estabilizar no meio. Quantas vezes fiquei madrugadas na livraria HQMix na praça Roosevelt conversando com o Gualberto Costa, o Gual, e ele me dava diversas dicas e ideias do que fazer, e eu segui muito os seus conselhos. Produzir a revista trouxe muito mais coisas que eu jamais poderia imaginar antes e depois da Subversos eu não parei mais de fazer quadrinhos.

 

11- Quais são seus outros trabalhos?

Atualmente estou produzindo a webcomic de humor, Capas & Gravatas, junto com o Bernardo Cury. Ela se passa numa grande empresa de super heróis, mas nossos protagonistas mesmo possuindo super poderes, acabam trabalhando num tedioso departamento de métricas e, mesmo assim, conseguem se meter em altas confusões. Os roteiros são de Bernardo Cury, eu faço os desenhos, as cores são da Mariana Fiore e sai uma página nova toda segunda-feira. Confiram lá.

Esse ano foi lançada pela editora Nemo mais uma graphic novel que fiz a colorização: A Luta Contra Canudos, com roteiro de Daniel Esteves e desenhos do Jozz. Anteriormente o Jozz e eu já tínhamos produzido também pela Nemo a adaptação  para quadrinhos da peça Otelo de Shakespeare e foi um grande sucesso – a venda já passou de 20 mil exemplares.

 

12- Projetos futuros? O que podemos esperar?

A meta é que o Capas & Gravatas continue por um bom tempo com diversas aventuras malucas. O Bernardo já criou arcos suficientes para uns três anos de publicação semanal, então é sentar e desenhar bastante pra depois sair uma versão impressa. Eu estou gostando muito de produzir pra internet, esse ritmo de uma página por semana não te deixa parar e sinto que estou melhorando bastante a cada nova página.

Além disso, já estou colorindo mais uma graphic novel sobre a história do Brasil pela editora Nemo que deve ficar pronto mais pro fim do ano, e, se tudo der certo, depois desse trabalho já vem mais outros dois também pela mesma editora. Tem sido muito bom trabalhar com a equipe de lá, principalmente o editor Wellington Srbek.

Estou feliz que tenho produzido muito quadrinhos e espero continuar assim, a Subversos foi o começo de tudo e quem sabe mais pra frente ela não volta né? Obrigado por entrar em contato, gostei das perguntas e desejo muito sucesso para vocês. Um abraço.

 

*Na foto de capa respectivamente Alexandre Manoel, Akira Sanoki e Igor Shin Moromisato em evento de lançamento da primeira edição da revista Subversos. Retirada do site da revista.