ELA da Vez #01: Willie Mae “Big Mama” Thornton

Por | 23/01/2014 | Sem Comentários

A ideia do Ela da vez é a de publicar textos sobre mulheres fortes dentro da indústria musical, sejam intérpretes, compositoras, instrumentistas ou que tenha influenciado algo/alguém de forma mais abstrata.

Começaremos com esta diva magnânima que foi Big Mama Thornton.

Big+Mama+Thornton+BMT

Quem foi Ela?
Thornton nasceu em Ariton, Alabama em 11 de dezembro de 1926, crescendo em Montgomery. A introdução a música ocorreu dentro da igreja batista onde seu pai ministrava e a mãe, assim como a própria Willie e seus seis irmãos, faziam parte do coral. Em 1941 tinha 14 anos quando perdeu sua mãe. Participou então de um concurso de canto local e vencendo acabou atraindo a atenção do produtor musical Sammy Green, que a convidou para participar da trupe Hot Harlem Revue, um show de variedades de Atlanta.

Durante sete anos Willie Mae se apresentou e excursionou pelo sul dos Estados Unidos em companhia da trupe. Ela contribuía nas apresentações cômicas, cantando, além de tocar bateria e gaita.

Em 1948 abandonou o grupo e seguiu para Houston no Texas determinada a focar sua carreira como cantora. Conseguiu uma apresentação regular no Eldorado Club onde foi “descoberta” por Don Robey da Peacock Records em 1951, selo em que também faziam parte Clarence “Gatemouth” Brown, Little Richard e Memphis Slim. Debutou neste ano participando do álbum “Partnership Blues”. Neste período ela continuou a fazer tours ganhando audiência com seu poderoso vocal, sua habilidade como instrumentista de blues e carisma nas apresentações. Tanto que em uma apresentação no Harlem´s Apollo Theater o empresário Frank Schiffman cunhou o apelido “Big Mama”, depois de ela ter roubado o show da cantora principal “Little” Esher. O apelido proveio da magnitude de sua voz e ao seu grande tamanho físico.

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Hound Dog

Versão ao vivo de 1965

Foi no ano de 1952 que estourou com a primeira gravação da música Houd Dog, que viria a ser seu mais famoso hit. Existe até hoje disputa pela autoria desta música entre Johnny Otis (produtor da mesma) e os escritores Jerry Leiber e Mike Stoller, mas nenhum crédito foi recebido pela grande intérprete “Big Mama”. Ela, aliás, mal recebeu pelas quase duas milhões de cópias vendidas desta gravação.

Hound Dog ficou por sete semanas em primeiro lugar na Billboard em 1953 e tornou Big Mama Thornthon uma estrela. Depois deste momento vários cantores interpretaram a composição, mas a música ficou famosa até hoje na gravação de Elvis Presley de 1956, que sobrepujou a original em termos de vendas apesar de ter alterado o teor da letra.

Para entender um pouco mais sobre Big Mama, Jerry Leiber citou em entrevista no ano de 2001 relatando o momento em que ela fez o teste para a música:

Nós levamos a música para Big Mama e ela arrancou o papel da minha mão dizendo “É esse meu grande hit? ” Eu respondi “Espero que sim”. Ela em seguida surpreendeu cantando Hound Dog como Frank Sinatra faria em In The Wee Small Hours of the Morning. Então olhei para ela, estava intimidado pelas cicatrizes em seu rosto e seu tamanho, e então eu disse, “Não é desta forma”. E ela olhou pra mim, como se olhares pudessem matar – neste momento foi que ela descobriu que eu era branco – “Garoto branco, você não vai me dizer como cantar o blues”.

Em seguida Leiber demonstrou a ela a maneira que pretendia que a canção fosse interpretada, fazendo com que captasse a intenção da letra soar algo como um diálogo além do humor sexual implícito. Depois disto ela adicionou inúmeros toques pessoais, incrementando as letras, com interjeições que valorizaram sua interpretação. Big Mama usava um timbre grave e ligeiramente rouco de sua voz para fazer as palavras soarem com o efeito de um rosnado.

Hound Dog de Thornton era diferente de todas as gravações de rhythm and blues da época em termos de arranjos. Não há nada de solos de saxofone ou floridos sons de piano marcando o ritmo. Em vez disto existe uma base de guitarra, baixo e bateria e sua voz ressonante dominando tudo. Com esta música Big Mama Thornton trouxe a importância da voz da mulher negra dentro do que viria a ser o rock´n´roll.

A música vendeu mais de dois milhões de discos. Eu recebi um cheque de 500 dólares e nunca vi outro.” – disse ela tempos depois.

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Thornthon continuou a gravar com a Peacock até 1957, fazendo tours com vários performers, mas no final da década seu nome começou a sumir devido a perda nas vendas de R&B para o crescente rock, com suas letras leves voltadas para o público adolescente. De suas músicas nesta gravadora na época estão I Smell a Rat, Stop A-Hoppin´on Me, The Fish e Just like a Dog.

Antes de seu contrato expirar ela já havia se mudado para São Francisco e começado a se apresentar em clubs de blues locais na companhia de Clarence “Gatemouth” Brown, nas músicas fazia questão de enfatizar sua gaita. Na mesma época começou a se associar com a Arhoolie Records de Berkeley. Big Mama continuou na ativa a tempo de testemunhar renovação de interesse no blues tradicional, grandemente graças à influência de artistas britânicos como Eric Clapton e The Rolling Stones.

Em 1965 ela participou de uma turnê em conjunto do American Folk Blues Festival na Europa. Enquanto estava na Inglaterra naquele ano, ela gravou seu primeiro álbum para Arhoolie intitulado Big Mama Thornton – In Europe. Em 1966, Thornthon gravou seu segundo álbum para a mesma gravadora, o Big Mama Thorton & Muddy Waters Blues Band – 1966. Neste estavam Muddy Waters (guitarra), Sammy Lawhorn (guitarra), James Cotton (gaita), Otis Spann (piano), Luther Johnson (contrabaixo) e Francis Clay (bateria). Ou seja, só gente boa demais – se não acredita só pesquisar.

Se apresentou no Monterey Jazz Festival em 1966 e 1968 e seu último álbum pela Arhoolie foi Ball n´Chain lançado também neste ano. Ele é formado pelas faixas dos dois discos anteriores com adição das músicas Ball ´n´Chain que é uma composição própria Big Mama e Wade in the Water.

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Ball ´n´ Chain ou Ball and Chain
A sonoridade e atitude de Thornton foram fontes importantes de influência sobre outra grande cantora, Janis Joplin, que descobriu seu trabalho na época em que ambas moravam em São Francisco. Big Mama havia sido ativa por muito tempo na cena de blues do local, desde que havia se mudado para a cidade em 1956, e ajudou a remoldar o som do rock n roll permitindo que Janis gravasse sua composição Ball ´n´Chain. O estilo vocal de Joplin, que o crítico Robert Christgau descreveu como “dois terços Willie Mae Thorton e um terço Kitty Wells”, se destacou acima do som produzido por sua banda através da música.

Original:

Big Brother and the Holding Company tocou a música com a voz de Janis no Monterey Jazz Festival em 1967 popularizando a mesma logo depois. Através disto em 1969 Willie Mae conseguiu assinar um contrato com a Mercury Records e lançou seu mais bem sucedido trabalho comercial Stronger Than Dirt.

Janis:

thornton Photo by Charles Sawyer

Últimos Acordes
Na década de 70 a saúde de Big Mama já estava enfraquecida devido à bebida, além de ter sofrido um sério acidente de carro. Recuperou-se o suficiente para apresentar-se em 1973 no Newport Jazz Festival com Muddy Waters, B.B.King e Eddie “Cleanhead” Vinson em uma gravação chamada The Blues – A Real Summit Meeting lançado pela Buddha Records. Um de seus últimos álbuns foi Jail pela Vanguard Records em 1975 formado pela captura de performances em apresentações dentro de duas prisões do noroeste dos Estados Unidos.

Em 1979 ela se apresentou no San Francisco Blues Festival e voltou ainda ao Newport Jazz Festival em 1980. Como sua saúde continuava a declinar a artista perdeu muito peso nesta época, tornando-se quase irreconhecível… Até que começasse a cantar.

Big Mama Thornton

Essa maravilhosa mulher, inovadora, forte e de voz inigualável, pioneira, que se vestia como homem e bebia tanto quanto possível, que sempre carregava uma arma na bolsa e metia medo até na polícia do sul dos Estados Unidos, foi encontrada morta em seu apartamento em 1984, com 57 anos. Neste mesmo ano foi introduzida ao Blues Foundation Hall of Fame.

Hoje ela continua influenciando jovens artistas através do Brooklyn´s Willie Mae Rock Camp for Girls, um programa sem fins lucrativos que tutora garotas para que aperfeiçoem seus talentos musicais.

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