Diferenciação entre Yaoi – Shonen-ai e Bara = Boys Love

Por | 31/01/2014 | Sem Comentários

Através deste artigo tentarei esclarecer aos não iniciados sobre o maravilhoso mundo do Boys Love e suas mais potentes ramificações.

Esclarecendo os Termos:

O que aqui no Brasil temos como Yaoi, no Japão o termo há muito se alterou para BL, de Boys Love, devido à grande expansão de seu público consumidor através do ocidente. Este tem como tema o romance entre dois homens e pode ser consumido através de doujinshis (mangás produzidos geralmente por amadores, em cima de obras/personagens já existentes), fanarts, fanfictions, mangás, light novels, jogos de videogame e outros afiliados.

Boys Love (amor entre garotos, em inglês) tem significado óbvio, já a origem do termo Yaoi vêm do acrônimo das primeiras letras dentro da expressão japonesa Yama nashi, ochi nashi, imi nashi que significa algo como Sem clímax, sem trama, sem significado e era utilizada por pessoas como Ozamu Tezuka quando dispensavam mangás de baixa qualidade. Isso por que as primeiras obras yaoi de doujinshis focavam no sexo entre os personagens, sem se importar com a trama.

Family Game doujinshi yaoi de Naruto

Family Game doujinshi yaoi de Naruto

Os próprios envolvidos em BL se adquiriram dos termos perniciosos de forma corajosa e imaginativa, outro exemplo seria claramente o termo Fujoshi, que significa garota podre em japonês e classifica as fãs femininas do universo yaoi. O termo masculino é Fudanshi (garoto podre) ou Fukei (irmão mais velho podre). Existem também outros tipos de classificações criadas da mesma maneira, como Kifujin que usa caracteres que formam o termo nobre mulher transformando-o em nobre mulher estragada, que é utilizado para se referir a mulheres fãs de yaoi que possuem já alguma idade.

Proud to be Fujoshi by Evelynism

Proud to be Fujoshi by Evelynism

O Yaoi começou a estourar durante os anos 70 através de doujinshis feitos por fãs sobre romances internos entre personagens masculinos dos famosos shonens (mangás feitos para homens a partir dos 13 anos, caracterizado pelo humor e violência) da época, se expandindo para o que foi chamado Shonen-ai que já possuía histórias e personagens de autoria própria, ainda focando o romance entre dois rapazes.

Diferenças entre Yaoi e Shonen-ai

A terminologia de shonen-ai vem de shonen (garoto) e ai (amor) e é tido como uma corruptela do gênero shoujo (mangás românticos voltados para garotas). Os primeiros shonen-ai continham tramas complicadas pela quantidade de obstáculos que separava seus protagonistas, geralmente passavam-se durante o século XIX e em locais do exterior (como colégios internos europeus). Seus protagonistas eram sempre muito jovens e tinham entre si um amor idealizado que quase nunca era concretizado fisicamente, ao contrário do que acontecia nos doujinshis yaoi.

Atualmente existe uma mistura entre os termos, sendo que o ponto comum é que ambos referem-se sempre a histórias românticas entre dois personagens masculinos e são feitos para o público feminino (não que isso limite quem lê), além de geralmente criados por artistas mulheres.

No ocidente ocorre a utilização do termo shonen-ai quando não há sexo e yaoi quando este acontece. Existe também o termo lemon que especifica grande ênfase no conteúdo sexual, às vezes de forma violenta.

Contextualizando:

Para entender um pouco a homossexualidade no Japão podemos começar dizendo que este não é um país vexado pela religião como acontece aqui no Brasil e desde o período Edo existem “práticas sociais” relatadas que sintetizavam relacionamentos entre homens na parte militar (com os conhecidos samurais), dentro de monastérios e mesmo nas classes médias e baixas.

Por exemplo: O termo nanshoku que quer dizer cores masculinas refere-se a relacionamentos entre homens nas eras pré modernas do Japão que podia envolver a prática do shudō (abreviação da palavra wakashudō).

O Shudō era um tipo de pacto envolvendo um nenja (homem mais velho e ativo sexualmente) que tinha como obrigação proteger e passar seus conhecimentos a um jovem em formação chamado de wakashū (até 20 anos de idade) até que este entrasse na idade adulta, quando o pacto cessava de existir.

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Dentro deste “rito de passagem” a relação do professor (nenja) e aluno (wakashū) era restrita no sentido sexual a partir do momento em que nenhum deles poderia ficar com outro homem no período, porém podiam relacionar-se livremente com mulheres que de acordo com relatos (feitos por homens da época) também admiravam tanto os jovens wakashū, quanto onnagata (rapazes que se vestiam como mulheres) como aparecem em artes eróticas da época, denominados shunga.

Essa idéia de faixa etária apropriada em que o homem jovem ainda não assumiu características masculinas como barba, voz grave, entre outros, foi provavelmente o que ajudou a popularizar o ideal de beleza do bishonen (literalmente menino bonito é um termo dado a homens que possuem beleza ou sex appeal que transcendem limites de gênero ou orientação sexual).

 

Outras Características:

Seme e Uke

Denominação do papel sexual de cada personagem, sendo Uke passivo e Seme ativo, ambos derivados de termos provindos das artes marciais ukeru (receber) e semeru (atacar).

Na verdade os termos vão mais do que o papel sexual dentro do yaoi, formando características psicológicas dos personagens tais como fórmulas, assim o uke geralmente tem personalidade indecisa, é inexperiente em relacionamentos ou sexo e tratam-se quase sempre de bishonens retratados por olhos grandes, corpo esguio, etc. Enquanto o seme é geralmente mais alto, possuí cargos de poder e/ou dinheiro, é mais forte fisicamente e persegue o uke até conquistá-lo.

Darling - Yuzuha Ougi. Exemplo de uke bishonen

Darling – Yuzuha Ougi. Exemplo de uke bishonen

Tudo o que citei acima retrata as histórias mais chatas e vencidas dentro do Yaoi – em minha opinião – felizmente hoje esses paradigmas se quebraram e existem muitos mangás em que os papéis não são tão facilmente colocados, dando veracidade e autenticidade às obras.

Kuimonodokoro Akira de Tomoko Yamashita

Kuimonodokoro Akira de Tomoko Yamashita

Shotacon

Ás vezes encontrado com o termo shota, descreve atração por jovens garotos sentido por um indivíduo adulto (homem ou mulher) e se refere a um gênero de animes e mangás. Pode conter conteúdo explícito, puramente romântico ou completamente não sexual. Está relacionado com os conceitos kawaii (de fofura) e moe (que inspiram proteção) assim como o equivalente lolicon. 

Super Lovers -  Miyuki Abe. Exemplo de shotacon.

Super Lovers – Miyuki Abe. Exemplo de shotacon.

 

Bara

O Bara não é Yaoi, mas eu como fujoshi adoro.

Também conhecido como wasei-eigo (amor entre homens) ou ML (de Men`s Love) é um gênero de arte e mídia ficcional que também foca relacionamentos entre homens, porém é produzido por homens gays e para homens gays.

Iniciou-se durante os anos 60 através de revistas que continham conteúdo e arte produzida para homossexuais. Além de mangás, também conhecido como gei comi (gay comics), e ilustrações, ainda existem numerosos jogos eróticos assim como romances e outras mídias no Japão, estas infelizmente tem pouco alcance no ocidente.

O interessante do bara é que este não tenta recriar as regras heteronormativas de papéis de gênero entre masculino e feminino como acontece nos mangás yaoi. Os homens são representados com estereótipos de comportamento masculino e as ilustrações sempre são de homens muito musculosos ou com excesso de peso, algo como os bears da cultura gay.

Pride - Gengoroh Tagame

Pride – Gengoroh Tagame

Gachi Muchi

Significa algo como “musculoso-fortinho” e seria um crossover entre bara e yaoi. Geralmente produzido por autores gays, trata-se de um subgênero que apenas começou a ser explorado e que ilustra com mais veracidade os tipos de corpos dos personagens, atraindo com isso tanto o público feminino quanto masculino.

Honey Trap - Gai Mizuki

Honey Trap – Gai Mizuki

 

Considerações:

Em primeiro lugar gostaria de apontar que não é só no oriente que este tipo de ficção atraiu o olhar e ideal feminino, já que paralelamente no ocidente durante os anos 70 também surgiu o termo slash fanfiction em que o público feminino e heterossexual de séries famosas da época começou a escrever histórias paralelas envolvendo relacionamentos entre personagens do mesmo sexo – quase em sua totalidade masculinos. Iniciou-se através de fanfictions e fanarts protagonizadas por Kirk/Spock da série original Star Trek e a partir do advento da internet se popularizou entre os diversos fandoms (domínios de fãs) das temáticas mais diferentes.

Slash Fanart por sweetlittlekitty

Slash Fanart do seriado Sherlock da BBC por sweetlittlekitty

 

O slash da classificação provém da palavra inglesa para a barra que aparece entre os nomes dos protagonistas dos textos criados.

Ainda assim a slash fanfiction sofre preconceito dos próprios fãs das séries que deslegitimizam as mesmas como sendo algo permissivo, ao contrário do que acontece no Japão.

O interesse feminino em “viver” relacionamentos homossexuais masculinos pode ser interpretado de diversas formas, mas para mim parece que provém de um tipo de necessidade de desprendimento dos romances heteronormativos e tendenciosos que floreiam e falseiam através do ideal de príncipe encantado e o final feliz cheio de filhos. A partir disso buscamos um ideal sexual sem a objetificação do corpo feminino, fugindo da opressão sexual do homem através da vivência mais igualitária encontrada em algumas histórias.

No caso do Yaoi ainda existe o apelo ao psicológico feminino que comumente é envolvido com a sexualidade, já que na maioria dos mangás ocorre um pano de fundo emocional que pode soar mais verdadeiro já que um relacionamento entre o mesmo gênero passa o ideal de liberdade máxima de entendimento, além de uma fuga temporária da monótona vivência homem-mulher.

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