Como Luva de Veludo Moldada em Ferro – Daniel Clowes

Por | 20/02/2014 | Sem Comentários

Esta é uma história em quadrinhos preciosa para minha formação e a que sou apaixonada e eternamente deslumbrada. Não é nada do que você já viu na sua vida, não importam os tipos de comparações e referências que possam ser citadas pelos inúmeros indivíduos que a consumiram. David Lynch? Para mim a única semelhança é o onírico e nada mais.

Daniel Clowes é o criador deste vórtice visual, este estadunidense nascido em 1961 é celebrado por suas diversas obras entre os quais se encontram Ghost World, David Boring, Art School Confidential, Wilson, entre muitas outras. Teve sua primeira publicação entre 1986 e 1987, chamada Lloyd Llewellyn, antes de criar Eightball no ano de 1989, em que deu vazão a seus delírios em 23 edições até 2004, ganhando diversos prêmios.

Luva de Veludo, assim como algumas outras histórias, foram primeiramente impressas em partes dentro de Eightball antes de tornarem-se graphic novels únicas. Esta foi publicada em 1993 pela Fantagraphics, inclusive ganhando uma nova edição ano passado.

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É importante contextualizar Daniel Clowes para melhor entender seu trabalho (conforme artigo The Role of Compassion in Daniel Clowes “Like a Velvet Glove Cast In Iron” de Lewis Shiner), situando-o como membro da geração nascida nos os anos 60 nos Estados Unidos, que cresceu durante os movimentos de contracultura e sendo a primeira leva de crianças criadas em frente da televisão (a nossa Geração Coca-Cola). Estes que quando finalmente amadureceram não sabiam se portar diante dos horizontes expandidos anteriormente.

Para explicar, segue declaração do próprio autor em entrevista dada a Gary Groth para The Comics Journal 154 de 1993:

 “É uma cultura de contrariedade artificial – nós escutamos músicas dissonantes realizadas de maneira inepta, vestimos roupas feias e mal-ajustadas… Nós somos… híbridos desdentados, nos afastamos das intenções sérias dos movimentos do final dos anos 60 e 70… Nós extraímos aspectos variados destas duas culturas (“mídia alternativa” e o desleixo auto-consciente da primeira década e a adoração sem culpa de lixo da segunda) e  formamos um agregado que tem sentido apenas por indicar claramente que o nosso império está em declínio acentuado… Nós agora iremos afundar em esquecimento, para sermos lembrados (talvez) apenas por alguma geração mais idiota que vai morbidamente imitar nossos maneirismos em uma tentativa regressiva de evitar os horrores que certamente estão diante de nós.”

Esta geração futura somos nós, claro.

Ainda que talvez seja sujeito da primeira geração sem direção concreta, Clowes produziu com Luva de Veludo uma obra única através de seu olhar marcante que conseguiu inovar pela autenticidade individualista das margens artísticas. Luva de Veludo neste âmbito é intenso, já que a idéia provém de sonhos que o autor e sua ex-esposa tiveram até que o mesmo deu continuidade às imagens e sensações sempre explorando primeiramente o efeito que estas tinham em sua pessoa.

O título veio de uma fala dentro do filme Faster, Pussycat! Kill! Kill! de Russ Meyer: “You´re cute, like a velvet glove cast in iron. And like a gas chamber, Varla, a real fun gal.”

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Clay Laudermilk é o protagonista modesto e sem muitas posses que inicia a história em um cinema pornô quando um estranho filme homônimo ao quadrinho aparece na tela. Nele não há nudez ou sexo, apenas pessoas vestidas com roupas da prática sadomasoquista dentro de estranha combinação de imagens. Ao final do filme o rosto da atriz (chamada Barbara Allen) aparece e Clay reconhece sua esposa que havia lhe abandonado tempos atrás.

Imediatamente alerta, consulta um guru que tem todas as respostas e atende pessoas dentro do banheiro do cinema pornô que lhe diz que o filme pertence a companhia Interesting Productions de um tal de Dr. Wilde e que fica em uma cidade próxima, Gooseneck Hollow.

A partir deste momento a história segue Clay em sua busca por Bárbara passando por policiais abusivos, uma seita feminista violenta liderada por um homem hipócrita chamado Godfrey (God – Deus), teorias da conspiração, o encontro com uma garota golfinho e sua velha mãe ninfomaníaca, entre outras.

Interessante observar as questões sexuais e de gênero implícitas, assim como o fato de o passivo protagonista ir gradualmente perdendo tudo o que possui ao se envolver com os personagens que aparecem em seu caminho.

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rosto do Sr. Jones

Existe também a curiosa imagem do Sr. Jones que primeiro é tatuado no pé de Clay pelos dois policiais e que acaba sendo objeto de interesse e pesquisa de alguns personagens pela quantidade de vezes que apareceu durante a história da humanidade. Aqui o autor se utiliza da referência “Qual a freqüência, Kenneth?” provinda de um acontecimento real em que o jornalista Dan Rather sofreu violência de um homem que gritava esta frase o tempo todo, situação que se tornou um tanto lendária por sua absurdidade ao ponto de até inspirar uma música do R.E.M.

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Talvez Luva de Veludo não agrade a todos já que não é uma obra fácil (o ideal é voltar e mergulhar periodicamente, para apreciação a longo prazo), mas é uma experiência que deve ser provada nem que seja pela apreciação da forma como o autor conseguiu expelir artisticamente esta pérola da perturbação humana.

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Edição Nacional: Conrad

Ano: 2002

Páginas: 144