As vantagens de ser invisível

As vantagens de ser invisível

Por | 03/01/2014 | 1 Comentário

Na verdade não é essa a tradução exata do título “The Perks of Being a Wallflower” homônimo ao livro de  Stephen Chbosky (que também é o diretor da adaptação), este quer dizer algo como “As Vantagens de ser uma Flor de Parede”. O detalhe pode soar mínimo, afinal traduziram o sentido da frase original (uma flor de parede normalmente passa incólume). Infelizmente parte da beleza desta descrição se perde, já que o personagem principal chamado Charlie pode passar por invisível, mas é alguém a ser admirado quando finalmente notado.

Na verdade, nenhum dos nomes dos personagens que aparecem na história é real, já que nosso herói vai contando sua própria história enquanto escreve cartas anônimas a alguém que nunca chegamos a conhecer.

Claro que o recurso é perfeito, muito mais íntimo do que um inanimado diário, o destinatário das cartas anônimas  é alguém com quem Charlie pode ser sincero, ao mesmo tempo em que às vezes precisa de aprovação. Como o próprio filme parece pedir aprovação de nós, telespectadores.

Acompanhamos nosso protagonista interpretado por Logan Lerman (escolha que me decepcionou um pouco, por eu considerá-lo muito bonitinho para o papel) em seu primeiro dia de aula como nada muito diferente de outros tantos filmes slice-of-life dentro das escolas dos Estados Unidos. Mas em algum momento somos cativados pela sinceridade e melancolia de Charlie, que é genuinamente alguém com problemas psicológicos.

Claro que conseguimos enxergar isso melhor quando este tenta socializar com Patrick (Ezra Miller, que está excelente) e Sam (Emma Watson), o casal de meio-irmãos que estão no último ano são a epítome do fantástico aos olhos de Charlie, e possuem um círculo de amizade particular cheio de outsiders que aceitam Charlie em seu meio, apesar de encontrarem sua personalidade particular.

Toda a trama tem um tom denso e verdadeiro cheio de discursos mal-interpretados e batalhas internas, o sentimento as vezes é tão profundo que ficamos incomodados com a reação dos personagens ao mesmo tempo em que somos conquistados pela simplicidade que uma história biográfica como esta pode provocar. É o tipo de filme que às vezes não colocamos crédito algum enquanto vemos, mas após continua na lembrança como em ecos de memória.

Um detalhe que me irritou é que o filme deu a entender que Charlie foi aceito por dó por seus “mentores” Patrick e Sam, o que  não deixa de ser um recurso interessante que  Stephen Chbosky se utilizou: afinal, ser acolhido por pena em um círculo de perdedores é bastante patético. Mas não é assim que acontece no livro pelo menos:

Patrick e Sam levam Charlie para sua primeira festa, onde ele consome drogas pela primeira vez na vida. Tanto no livro como no filme a bela Sam prepara para ele um milkshake enquanto Charlie vai ao banheiro e acidentalmente encontra Patrick dando uns amassos com um garoto popular da escola. Este jura guardar segredo sobre o que viu, e por este motivo Patrick o chama de wallflower – alguém que observa tudo sem ser devidamente notado, e por isso belo.

Já no filme Charlie conta a Sam que seu melhor amigo havia se matado recentemente enquanto esta prepara seu milkshake e, quando ela passa esta informação a Patrick estes fazem um brinde em nome de Charlie.

Fora este detalhe todo o roteiro baseado em diálogos é quase uma cópia fiel dos encontrados no livro, assim como grande parte da trilha sonora, que é maravilhosa e essencial para expressar as emoções dos personagens. Como a trama se passa no começo dos anos 1990 temos músicas do New Order, Cocteau Twins, Sonic Youth e The Smiths, sendo que a última banda é louvada pelos personagens tanto no livro quanto no filme.

Devo dizer, no entanto, que fiquei bastante decepcionada por terem utilizado a música Heroes de David Bowie em vez do original Landslide do Fleetwood Mac como a trilha do túnel.

O que? Esses três nunca ouviram falar de Christiane F. (1981) na vida deles? Não é um detalhe pequeno, já que a música do túnel (como os personagens chamam) é um dos melhores momentos da história.

Apesar dos pesares este filme tem um final maravilhoso com uma reviravolta emocionante e encerramento repleto daquele misto sentimento de tristeza e esperança que preenche a maior parte da vida.

  • L.G.B.Paiva

    Assisti o filme recentemente e gostei bastante, não cheguei a ler o livro ainda no entanto. Ao meu entender as cartas que o Charlie escrevem são para o amigo morto, como uma forma de manter contato com ele. O final pra mim foi completamente inesperado e muito bom.

    Outra surpresa foi ao escrever esse comentário estava ouvindo Landslide e eu achava que essa música era do Smashing Pumpkings, pois é uma das minhas favoritas da banda.