Ignacio de Loyola Brandão - A Rua de Nomes no Ar

A Rua de Nomes no Ar

Por | 06/01/2014 | Sem Comentários

Trata-se de um apanhado de textos de Ignácio de Loyola Brandão que vão de crônicas a contos de ficção, divididos em seis temas: Cidade/Cotidiano; Memórias da Infância; Crianças; Gente; Viagem e Fantasia. As divisões facilitam a leitura deixando-a leve e instigante.

O livro ainda possui uma breve introdução contendo parágrafos-capítulos que vão aumentando de tamanho gradualmente, como se seduzissem o leitor.  Existem textos nesta introdução que me fizeram debulhar em risadas no meio do vagão lotado do metrô.

A primeira parte Cidade/Cotidiano é a maior do livro e também a mais diversa. Temos crônicas com diálogos divertidíssimos que dão a impressão de terem sido completamente inventados pelo autor justamente pela genialidade; anedotas que Loyola parece ter escutado de terceiros e resolveu adaptar, pensamentos do mesmo sobre coisas variadas como o costume que tem de guardar papéis, além de diversos retratos da cidade de São Paulo. Ver a cidade sob sua ótica é como acompanhar a um balé de seres, cheiros, reflexões e memórias e sempre com um sorriso no rosto.

O carro-chefe deste primeiro tema (e talvez do livro no geral) em minha opinião é o texto “Homem Feliz na Chuva”. Neste Loyola me atingiu com um forte sentimento, provindo de sua sábia e ao mesmo tempo humilde visão do que significa estar vivo – e aproveitar-se disto.

O autor não é ácido, suas críticas são leves e sempre respeitosas – além de engraçadas. Existem dentro de seus textos diversas observações tanto sociais quanto políticas, mas de uma forma que nos faz aspirar em reconhecimento daquilo que é falado.

Durante toda a leitura sentimos uma grande proximidade com o autor, quase como se fossemos conhecendo-o na vida real. Isso é resultado da naturalidade de sua escrita, é quase como se ele estivesse conversando conosco pessoalmente.

Desta forma acabamos nos emocionando por ele e com ele. Como na segunda parte -Memórias da Infância – em que tomamos carona em sua nostalgia (apesar de eu ter passado a minha infância de forma um pouco diversa, também tive os resquícios da “turma da rua”).

Algumas coisas chegaram a me causar também grande inveja, como em “Mágicos, Sensuais, Coração, Alma”. Neste texto o autor descreve de forma apaixonada os jardins de sua infância e a sensação é quase como se fosse um local mágico. Eu, como pessoa nascida na cidade de cimento, nunca tive tal contato com a natureza e através de sua narração tornei-me facilmente mais uma criança em sua rua, encarando um fantástico recanto arborizado como se fosse uma floresta.

capa do livro

Voltamos no tempo com Loyola, observamos pessoas e suas conversas, a cidade como um animal monstruoso, as mudanças na sociedade… Passeamos com ele por outros países, nos identificamos, choramos e rimos através do que ele tem a nos dizer. Na última parte somos inclusive guiados por ele dentro da sua potente imaginação, através de textos nonsense fabulosos.

Para concluir tenho de dizer que criei pelo título deste livro (que também é título de um dos textos) um grande apreço. Isso por que “A Rua de Nomes no Ar” é símbolo de um acontecimento precioso, de uma época gravada por sentimento único – praticamente ouço as vozes das mães ecoando das casas dentro da noite, todas as noites, chamando as crianças para dentro em um ritual de vozes flutuantes.

Eu sinto forte afeição e ao mesmo tempo pesar pela “Rua de Nomes no Ar” por que as crianças hoje já não saem nas ruas e, se por acaso isso acontece, serão chamadas através dos vastos dispositivos eletrônicos, deixando a rua calada.

Ignácio de Loyola Brandão é um contista, romancista e jornalista fabuloso e você pode saber mais sobre ele em seu site: http://www.ignaciodeloyolabrandao.com/