A Pérola – John Steinbeck

Por | 07/03/2014 | Sem Comentários

A Pérola é um livro do escritor estadunidense John Steinbeck publicado em 1947. Inspirado tanto por uma parábola bíblica (Mateus 13:45) como por um conto popular, Steinbeck construiu a história de forma bastante visual, já que a idéia era transformá-lo em roteiro para um filme mexicano. Primeiramente foi publicado como um conto chamado de A Pérola do Mundo (ou A Pérola de La Paz) em 1945 e enquanto trabalhava na versão final viajou freqüentemente para o México onde filmavam a adaptação chamada La Perla (co-escrita com Jack Wagner) que estreou juntamente com a publicação do livro em 1947.

Esta é uma obra curta, sendo que a introdução já aponta os acontecimentos como uma parábola ou um conto.

A história passa-se em um povoado de La Paz (México) onde vive Kino, nosso protagonista, com sua esposa Juana e o filho pequeno Coyotito. Estes moram em uma vila indígena ao lado da cidade e próximo ao mar onde além da pesca também procuram por pérolas para sobreviverem. Acontece então de Coyotito ser picado por um escorpião e seus pais com medo da criança morrer procuram o médico da cidade, porém por não possuírem dinheiro e serem indígenas o médico se recusa a sequer olhar a criança.

Humilhado Kino mergulha a fim de procurar uma pérola que pague o tratamento do filho, ainda que Juana tenha medicado o menino com plantas medicinais e este demonstre melhoras. Então algo surpreendente acontece, Kino encontra uma perfeita e imensa pérola que todos passam a chamar de A Pérola do Mundo.

A partir daí a preciosidade da Pérola chama a atenção de todos ao redor da família de Kino, seja dos membros do vilarejo que tanto invejam quanto desdenham do acontecimento, como do Padre, dos comerciantes do local e claro do médico que havia se recusado a atender Coyotito.

Trata-se de uma jornada cheia de acontecimentos externos que me provocaram uma raiva impotente enquanto lia, principalmente por causa dos arquétipos dos personagens e do maniqueísmo, ainda que entenda ser uma crítica a sociedade capitalista e ao Sonho Americano.

Tudo começa quando perguntam a Kino o que faria com a Pérola do Mundo, já que Coyotito havia recuperado a saúde e o objetivo inicial de curá-lo perdeu-se. Então primeiramente Kino declara que se casaria com Juana na igreja, depois que seu filho freqüentaria a escola e aprenderia a ler – já pensando que no futuro Coyotito ajudaria todo o vilarejo com seu conhecimento, e por último diz que iria adquirir um rifle. Este pensamento que é tratado pelas reações dos ouvintes vizinhos a família como um sonho extrapolado, reflete nitidamente tanto a agressividade deste desejo (arma de fogo desnecessária a moradores de um lugar pacífico), como a importância e perigo que possuir A Pérola traz (ganância e inveja externa) e ainda desbloqueia uma série de possibilidades dentro da realidade simples da família (objeto bastante caro).

Talvez o que tenha me irritado mais foi como o autor retratou a posse da Pérola como algo inerente ao “mal”, ou seja, a ganância nem que seja de um futuro melhor ao filho de Kino já coloca toda a família em risco – que seria o arquétipo da felicidade pacífica – o que a meu ver é ambíguo e extremamente moralista. Por que sair de sua esfera social é tratado basicamente como lutar uma guerra que nosso protagonista não pode ganhar.

Os arquétipos são bastante pesados também: o médico que sonha apenas em viver na bonança e retornar para Paris se aproveitando da falta de conhecimento de Kino e Juana em relação ao tratamento de Coyotito, assim como o padre que invade a casa de ambos para lembrá-los que foi Deus que mandou a Pérola (e que não se esqueçam de retribuir). Tudo isso acontece trazendo a “Canção do Mal”, já que Kino todo o tempo escuta algo como uma trilha sonora de ambientação (também um recurso para a adaptação cinematográfica). Como “A Música da Família” que evoca a tranqüilidade e felicidade e a “Cantiga da Pérola” que se mistura com as duas anteriores.

A Pérola do Mundo representa então uma porta de possibilidades que Kino se apega facilmente e que Juana teme por atrair elementos violentos externos. Aqui também me irritou um pouco o papel de Juana como uma agente estereotipada, como um escudo ou elemento de equilíbrio ainda que passiva em relação ao esposo. Tenho que dizer que é de se levar em consideração que se trata de um conto feito por um indivíduo de fora (Steinbeck) e por isso tendenciosa e por isso a força estóica de Juana também me parece uma visão obliterada masculina e de classe alta do que seria realmente uma relação verdadeira de um homem e uma mulher dentro destes parâmetros naquele local e época.

Apesar das críticas algumas partes da narrativa me agradaram bastante como os moradores de rua que ficam nas portas das igrejas e por verem quem entra e sai do confessionário sabem os segredos de todos, estes quando ficam sabendo que Kino encontrou a Pérola riem porque “sabiam que não há ninguém que dê esmolas no mundo como um homem pobre que de repente tem um golpe de sorte”. Assim como os comerciantes de pérolas que enganam a todos da vila por vários anos, sendo que todos trabalham para o mesmo homem e existem em sua variedade apenas para abaixar o preço do produto – o que torna seu chefe cada vez mais rico e o povoado sempre pobre.

Dentro desta esfera a própria pérola como objeto de valor ao ser analisada não passa de areia, quem viu beleza e deu valor modificando seu significado foram os homens. A dificuldade que Kino encontra em vender a mesma também deixa aberta uma série de possibilidades, sendo que seu valor real só será conhecido quando outra pessoa adquiri-la. Assim como o autor levanta a questão do “estado natural do homem” com suas evocações ao passado do povo indígena do protagonista.

A história entra em seu ápice quando nosso herói perde o que foi antes seu único bem: o barco. Sendo uma herança de família que era preservado unicamente pelo senso de importância de Kino, quando este é danificado para impedir que a família vá para a Capital vender A Pérola do Mundo por um preço justo, representa a perda do passado da família para que estes encontrem uma nova posição social. Porém em busca deste “sonho” que foi aberto pela “possibilidade” da Pérola perdem tudo o que de real possuem, inclusive seu passado feliz.

Assim ao final é coroada a ganância como um mal a igualando com o sonho de igualdade e busca de conhecimento (a necessidade de um médico – estudo para Coyotito), o que encontro como terrível, ainda que seja impedida unicamente pelo espectro da sociedade maligna capitalista que necessita que os pobres continuem em sua devida cela. Porém aqui o mundo dos excluídos é retratado como algo de beleza natural e pura.

Como toda parábola o significado vêm da reflexão e por isso A Pérola é uma leitura interessante sendo recomendada freqüentemente no currículo escolar. Ainda foi adaptada cinematograficamente por Dias Gomes em 1971 e em 2001 por Alfredo Zacharias.